Tensionar os acontecimentos, atravessá-los por uma ótica diversa e transformá-los em matéria viva para o constante exercício de letramento racial. Essa é a tônica desta coluna e reverbera neste artigo. Ao abordar o protagonismo negro no Festival de Cinema de Gramado em 2025, convido a leitora e o leitor a olharem para além das premiações e reconhecerem os deslocamentos simbólicos que essas narrativas provocam. Porque falar de cinema, arte e cultura é também falar de acesso, poder e memória — e é nesse entrelaçamento que seguimos construindo leituras mais amplas, generosas e comprometidas com a contemporaneidade.
Com 53 edições ininterruptas desde sua criação, em 1973, o festival consolidou-se como uma das mais importantes vitrines do audiovisual brasileiro e ibero-americano. O evento não apenas celebra a produção cinematográfica nacional, como também é um espaço de fomento, debate e afirmação da sétima arte. Ao longo das décadas, acompanhou as transformações do cinema brasileiro — da crise da Embrafilme nos anos 1990 à ascensão das produções independentes e periféricas na atualidade.
Em 2025, o festival reafirma sua relevância ao ampliar o escopo de representatividade, pois, durante décadas, o ambiente era frequentado majoritariamente pela elite branca cultural do estado e do país. Há alguns anos, Gramado vem premiando narrativas negras, indígenas e amazônicas e se posicionando como um palco estratégico para o letramento estético e político da contemporaneidade. O festival tem o troféu Sirmar Antunes, grande ator negro do cinema gaúcho, falecido em agosto de 2022, que premia atrizes e atores negros. Já foram premiados Vera Lopes (2023), Álvaro Rosa Costa (2024) e Glória Andrades (2025).
Com uma programação robusta e plural, a 53ª edição reuniu 74 produções entre curtas e longas-metragens. Distribuídas em cinco mostras competitivas principais — Longas Brasileiros de Ficção, Documentários, Curtas Brasileiros, Longas Gaúchos e Curtas Gaúchos —, as obras apresentadas refletiram a diversidade estética, temática e geográfica do cinema contemporâneo. Ao todo, foram entregues 52 prêmios, sendo 40 Kikitos, símbolo máximo do reconhecimento artístico do festival. Com uma estimativa de público de 40 mil pessoas, a edição de 2025 não apenas consolidou o Festival de Gramado como um dos maiores eventos audiovisuais da América Latina, como também mostrou-se um espaço de encontro entre tradição e renovação, em que novas vozes e narrativas emergem com força e legitimidade.
Aconteceu à Luz da Lua, curta-metragem dirigido e protagonizado por Crystom Afronário, venceu o Prêmio Especial do Júri. Com elenco 100% negro e periférico – moradores do Morro da Cruz em Porto Alegre, Zona Leste, uma das regiões mais negras da cidade -, o filme aborda temas como educação, violência policial e sonhos interrompidos.
Jeguatá Xirê, curta gaúcho dirigido por Ana Moura, Alan Alves-Brito e Marcelo Freire, e narrado por mim, Nina Fola, foi premiado na Mostra de Curtas Gaúchos. A obra mistura ciência, espiritualidade e ancestralidade africana, traçando uma jornada cósmica guiada por cantos e saberes do povo Kanyoka e Chokwe.
O rapper e ator Xamã venceu o Kikito de melhor ator coadjuvante por sua atuação em Cinco Tipos de Medo, marcando sua estreia no cinema com uma performance elogiada.
O filme Boiuna, produzido no Pará, com temática afro-amazônica e protagonismo feminino negro, venceu, na Mostra Competitiva de Curtas-metragens Brasileiros, as categorias de Melhor Direção de Adriana de Faria, Melhor Atriz Naieme e Jhanyffer Santos (prêmio dividido entre as duas atrizes) e Melhor Fotografia de Thiago Pelaes.
O Melhor Curta-Metragem Brasileiro foi “FrutaFizz”, de Kauan Okuma Bueno, com dois protagonistas negros.
Visibilidade, impacto cultural e seu poder transformador
A ascensão de artistas negros nas premiações representa um marco crucial que transcende o reconhecimento individual. Ela desafia e rompe com o arraigado histórico eurocêntrico que por tanto tempo moldou o festival e a indústria cinematográfica como um todo. Ao conceder visibilidade e mérito a essas vozes, o cinema se reafirma como uma ferramenta poderosa, capaz de fomentar o pertencimento, resgatar a memória e impulsionar a transformação social.
A diversidade que emerge dos filmes premiados com a participação de artistas negros e de pessoas de fora do eixo Rio-São Paulo revela um Brasil plural em sua essência. Essas narrativas, outrora marginalizadas ou sub-representadas, agora ocupam o centro da discussão, oferecendo perspectivas autênticas e multifacetadas sobre a experiência brasileira. A arte negra, em sua riqueza de expressões e histórias, deixa de ser um componente para tornar-se o cerne da narrativa audiovisual. Dessa forma, redefine o que é considerado “universal” e celebra a complexidade e a beleza da identidade nacional. Esse movimento e criatividade de diretores e artistas inspira novas gerações e reconfigura o imaginário coletivo, ampliando as possibilidades de existência.
Ao final das premiações, a Secretaria Estadual da Educação anunciou a criação de uma nova escola técnica de cinema. Por se tratar de ensino público, almeja-se que este espaço de construção do saber promova o acesso dos jovens negros, indígenas e periféricos, pois, mesmo com nomes e premiados bastante comemorados, ainda existem barreiras imensas a essa população no cinema.
O Festival de Gramado 2025 apresentou à comunidade artística a possibilidade real e simbólica da centralidade de narrativas que são manifestações poéticas e políticas, desafiando o apagamento histórico de aspectos historicamente marginalizados no audiovisual, como a ancestralidade africana e os saberes populares.
A presença de corpos negros em papéis centrais, tanto na frente quanto atrás das câmeras, contribui para a descolonização do olhar cinematográfico. Isso significa deslocar o foco da narrativa dominante para vozes historicamente silenciadas, ampliando o repertório cultural do país.
O tapete vermelho e a rua coberta do principal destino turístico do Rio Grande do Sul, tradicionalmente associados ao glamour e à elite cultural, tornaram-se, em 2025, palco de afirmação da identidade negra, periférica e insurgente. A ocupação destes espaços é um gesto político que redefine o sentido do evento.
Essas conquistas são, sobretudo, um marco histórico. Que esse seja o início de uma nova era, em que o cinema não apenas represente, mas revele e repare as desigualdades em todas as camadas sociais do Brasil. Que a arte seja revolucionária, extravasando fronteiras físicas e mentais!
Nina Fola, mãe de Aretha e Malyck, é multiartista, socióloga, atuante nos coletivos @afroentes, @coletivoatinuke e @odaba.br. Aborda a questão de raça e gênero em todos os seus trabalhos acadêmicos, artísticos e profissionais. Gestora do @cavalodeideias, uma consultoria em diversidade e inclusão onde faz palestras e formações. (@ninafola)
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Foto da Capa: @afronario / @alvesbritoalan / Divulgação

