Minha filha anda ocupada com o tema da impressão digital. A todo momento vem checar e confirmar a informação de que cada pessoa tem uma única e singular impressão digital que a identifica. Outro dia, numa viagem de carro, me questionou sobre um número que fica na parte inferior do vidro da janela. Explico sobre o chassi e sua função, ao que ela diz: “Ah, então o chassi é a impressão digital do carro, né, mãe?”. Sim, objetos e pessoas precisam de identidade e unicidade. Para serem encontrados, para serem responsabilizados, para serem. Ela segue ocupada com o tema das curvas tênues de seus dedos e pergunta-se, e também a mim, como é possível que todos os dedos da mão de uma pessoa tenham a mesma impressão digital. E se em cada dedo formos uma pessoa diferente?
E se no carnaval fôssemos pessoas diferentes, ou melhor: e se no carnaval fôssemos quem realmente gostaríamos de ser para depois tornarmo-nos cinzas? Ao longo desses dias de folia – mais dos outros do que propriamente minha – assisti a um vídeo onde o sujeito falava sobre o carnaval não ser o ópio do povo, como muito se diz. Ao contrário. Ele diz que o brasileiro não pula carnaval porque é feliz, mas justamente o contrário. São dias de alforria, dias de liberdade, ao mesmo tempo que culturalmente são dias (ou deveriam ser) de denúncia, de manifesto, de visibilidade e alegria. Se alguém ainda duvida de nossa sociedade machista, misógina e preconceituosa, ontem, ao pegar um Uber para ir encontrar uma amiga, passamos por um local mais movimentado da cidade com muitas pessoas na rua e ele larga a pérola: “É, moça, não dá para acreditar, mas tem que cuidar, tá cheio de veado solto na cidade”. São muitas camadas preconceituosas nesse comentário: moça tem que cuidar. Cuidar por quê? Preciso estar acompanhada de um homem? “Veado” não é homem? Aliás, na maioria das vezes, me sinto mais cuidada por meus amigos gays do que pelos heterossexuais.
O carnaval é nossa impressão digital de brasileiros. Sendo carnavalescos ou não. Ao contrário da canção, minha carne definitivamente não é de carnaval. Não é de glitter, nem de bloquinho. Meu bloco é outono/inverno e todas as suas sutilezas e confetes. Mas entendo e louvo a importância do carnaval. Exalto que possamos viver dias de carnaval no tempo de cada um. Tempo de ser quem se é na essência e deixar para trás qualquer coisa que minimamente distancie esse re-encontro. Simbolicamente, todo carnaval tem seu fim, já falaram Los Hermanos. As cinzas sempre chegam, precisamos delas. Ninguém conseguiria viver em estado de carnaval constante, da mesma forma como o apaixonamento também precisa dar lugar ao amor tranquilo. Mas cuidado com as cinzas, porque elas contêm o carnaval, arrisco dizer que elas são a essência do carnaval. Não descarte as cinzas rápido demais. Mas também não se agarre demais a elas. Guarde-as como se guardam as cinzas dos amores que partem. Ou, caso queira jogar no mar, agradeça por elas, até que chegue mais um carnaval, com novas fantasias, novas tristezas, novas alegrias.
Encerro com um trecho do conto “Restos de carnaval” de Clarice Lispector que está publicado no livro “Felicidade Clandestina” de 1988:
“Naquele carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma. Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falasse comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com seu mistério. Como se as vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, era meu.”
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Foto da Capa: Gerada por IA.

