Recentemente, Michel Alcoforado, o “antropólogo do luxo”, lançou o livro Coisa de Rico, fruto de seu trabalho de 15 anos de pesquisa entre os mais endinheirados do país. Nele fez algumas descobertas interessantes, entre elas a de que no Brasil não existem ricos, pois o rico é sempre o outro; outra é a de que a inveja do outro embala e impulsiona essa economia da riqueza; uma terceira é a de que o maior medo é o de empobrecer. Ou seja, ser rico é sofrido.
Essa estrutura de pensamento e valores está encharcada em toda a nossa cultura, se formos observar as nossas atitudes cotidianas. Por exemplo, quando a gente consegue um convite exclusivo para algum evento que ninguém mais tem, porém, ao chegar lá, se sente inferiorizado/a porque tem um camarote cheio para o qual não estávamos convidados. A grama do vizinho/a sempre parece mais verde que a nossa. Nosso medo, confessemos entre nós, também é ficar pobre de marré marré marré.
Hierarquias
Assim como criamos hierarquias entre velhos ricos e novos ricos, vamos criando hierarquia entre homens e mulheres, brancos e negros, nordestinos e sudestinos, velhos e jovens, gordos e magros, entre outras categorias. No entanto, quanto mais dinheiro a pessoa tiver, ela vai conseguindo borrar essas categorias, mas não necessariamente deixar de ser inferior frente aos demais.
De uma maneira muito simplista: O melhor é ser rico, todos querem ser e trabalham para um dia chegar lá. Ser pobre é ruim, necessita ser evitado.
E daí, isso não seria “o normal”?
Num país em que 86% das pessoas se declaram religiosas e 96% afirmam que Deus está “no comando”, conforme pesquisa Brasil no Espelho feita pela Rede Globo, a compreensão da igualdade entre as pessoas, o reconhecimento da diversidade, a inclusão dos diferentes na sociedade deveria ser algo pacífico, já que todas as religiões, em princípio, professam amor, justiça, paz, humanidade e solidariedade entre todas as pessoas.
Reconhecer esses marcadores da nossa cultura (entre outros) se torna revelador e fundamental para nos apresentar um retrato de partes de nós que não são muito bonitas, mas que precisamos acolher. Como numa terapia, ao se tomar consciência, dói, mas é necessário para vivenciar o processo curativo, porque, a partir daí, podemos mudar o padrão de comportamento.
Medo de pobre
A pobreza assusta. No Brasil, em especial, cada vez que ela aparece, tanto no jornalismo quanto na publicidade, muitas vezes vem conectada com situações de insegurança e violência.
Ainda por cima, há toda essa camada cultural na qual estamos mergulhados, na qual todos queremos a riqueza, trabalhamos pelo sonho de um dia chegarmos o mais próximo dela e, portanto, o mais longe possível da pobreza.
Como ativista, atuo em defesa da longevidade da pessoa idosa e da população em situação de rua. Sinto claramente a diferença quando trato sobre as duas.
Quando abordo questões sobre a população idosa, observo a tendência de uma vitimização, imaginando o adoecimento na velhice, a infantilização, por conta de uma suposta perda de autonomia e/ou maior dependência, ou ainda uma idealização de uma “juventude eterna na velhice”. Tudo isso por conta do idadismo, discriminação por conta da idade. Mas a maioria das pessoas com quem converso e trabalho a respeito quer aprender, falar mais, se aprofundar sobre o tema.
No entanto, quando trato da população de rua, é muito frequente a ligação feita com a criminalidade e violência. No geral, argumentando que é um grupo em que existe grande dependência química e alcoolismo.
Afinal, o que veio antes: eles são dependentes porque foram pra rua ou foram pra rua porque eram dependentes? A dependência é causa ou consequência? Há meios para resolver os desafios? Quais seriam eles?
O prefeito Sebastião Melo, ao se reeleger, afirmou que uma das suas prioridades seria resolver a situação da população de rua. Lembremos que foi na sua primeira gestão que aconteceu o incêndio da Pousada Garoa, quando onze pessoas morreram.
Infelizmente, tenho observado de lá para cá, apesar dos números felizes de pleno emprego no país circulando por aí, que há muitas pessoas excluídas espalhadas pelas ruas de Porto Alegre. Pelas últimas contagens, cerca de 5.400 cidadãos, já que a Secretaria de Assistência Social da Capital ainda não providenciou o censo que disse que faria.
Fico a me perguntar por que até hoje essa gestão continua desrespeitando decisão do Supremo Tribunal Federal – STF de não remover a população de rua, enviando a Guarda Civil e DMLU para retirá-las dos locais em que vivem, retirando seus pertences, inclusive exames e documentos pessoais, até ração de seus cachorros, mesmo sem ter espaços suficientes para acolhê-la. A solução não seria providenciar espaços suficientes para acolhimento? Moradias dignas? E por que ninguém se importa com isso?
Dia 10/10, a Cozinha Solidária, que funcionava há quatro anos na Azenha e atendia centenas de pessoas em situação de rua e em vulnerabilidade social, foi interditada. O argumento? Havia botijões além da conta no espaço, mesmo estando com cadastro de PPCI em andamento. Questionados, os órgãos da Prefeitura não responderam quantos botijões são os necessários. Lembremos que estamos falando de uma organização que faz um trabalho de importância humanitária importante para a sociedade. Quando, há pouco tempo, a Vigilância Sanitária fechou vários restaurantes badalados, muitos defenderam que ela deveria ter sido mais flexível para não prejudicar os empresários.
Até a hora do fechamento desta coluna, ela continuava fechada e a comida sendo servida na Praça Princesa Izabel para as centenas de pessoas de rua e em situação de vulnerabilidade social que tinham sua segurança alimentar garantida por ela. Dizem que a Associação de Moradores e Comerciantes do bairro foi a articuladora de tal medida. Parece que a norma de manter o pobre o mais longe possível, revelada pelo Michel Alcoforado, traz aqui um exemplo.
A Comandante Nádia possui um projeto a ser votado na Câmara de Vereadores, em que esse tipo de ação, como a ocorrida com a Cozinha Solidária, poderá se tornar comum, restringindo e criminalizando o voluntariado de distribuição de comida a pessoas em situação de rua e vulnerabilidade social.
Por causa dela, qualquer ONG ou pessoa que quiser distribuir alimento na rua deverá se inscrever junto à prefeitura, apresentando documentação, fazendo cadastro de dia, hora e local que deseja fazer a ação (a ser aprovado pelo órgão), cumprindo as regras de segurança alimentar na distribuição de alimentos e marmitas, incluindo sua preservação adequada durante o transporte, usando crachá, limpando o espaço. A partir desse projeto, o sanduíche, o café, qualquer alimento que você oferece na rua será crime.
O procurador do município, Fabio Nyland, indicou que o projeto “apresenta aspectos que extrapolam a competência municipal ao interferir de forma desproporcional em direitos fundamentais, como a liberdade de associação e a solidariedade espontânea. Além disso, a norma sobrepõe-se às relações humanas e interpessoais de maneira excessiva, burocratizando atos de assistência social sem justificativa suficiente para tal ônus. Sugere-se que o projeto seja revisado para: (1) limitar-se a diretrizes gerais de segurança alimentar e higiene, sem exigir inscrição ou autorização prévia; (2) prever sanções proporcionais e educativas, em vez de punitivas excessivas”. Apesar disso, o vereador Ramiro Rosário deu continuidade ao processo do projeto da Comandante Nádia e talvez vivamos na Capital com essa vergonha e desumanidade pela frente.
O mundo da população de rua, dos vulneráveis e excluídos, até por eles próprios às vezes, é um mundo de muitas filas, esperas, gritos, cheiros, fedores, trapos e cobertas, choros e descontroles. Assim, são percebidos pelo mundo dos “de fora”. O mundo dos ricos. O mundo que os quer o mais longe possível.
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Foto da Capa: Rovena Rosa / Agência Brasil

