Fazia muito tempo que eu não sabia existir em modo casada. Não me refiro aqui ao compromisso jurídico que a sociedade capitalista foi moldando com o seu incremento. Modelo que, diante do capitalismo em crise, tem sido sagazmente questionado e desassociado como principal forma de amar. Talvez devêssemos dizer fôrma de amar, já que é do que se trata para muitos. Contudo, neste momento, me remeto ao fato comezinho de associar meu dia a dia a outra pessoa. Por muito tempo, estive distanciada deste “outrar”, em uma solterice involuntária por vezes, obstinada por outras. Eu simplesmente pegava a minha bolsa e ia. Liberdade que conheci com o término de uma relação na juventude.
Ainda hoje lembro do sentimento libertador dos 20 e poucos. Estou caminhando sem celular em Buenos Aires e, nesse momento, ninguém sabe onde estou. E, para minha própria surpresa, em vez de pânico, sentia uma alegria gigantesca. Meses depois, liberada da necessidade neurótica de ser desrespeitada – naquela época ninguém falava em relação abusiva, mas era –, me separei. E a segunda sensação libertadora foi: eu não preciso combinar nada com ninguém. Aí que veio a história do pego a minha bolsa e vou!
Que incrível! Essa sensação era o misto de um deleite adolescente de liberação dos pais e, ao mesmo tempo, dignidade. Emoções mistas. Confesso que essa sensação sim fez mais sombra nas minhas novas aventuras e tentativas de me relacionar. Sobretudo comigo mesma. E vá análise e outras tecnologias de autocuidado. Muitas vezes neoliberais, admito, mas úteis para curar coração vagabundo e machucado. Depois de tanto autocuidado, sabe o que ficou difícil? Se entregar nas relações. Inclusive de amizades. E vá análise e autocuidado para não ter tanto autocuidado.
E, então, um dia a tempestade vem. E a gente vai meio no susto e descobre que é só uma chuva forte. E faz calor e o corpo quer se molhar, enquanto a cabeça calcula a possibilidade de ser alvo de um raio. E o corpo já é um com a água e já não faz sentido temer o raio, porque nada parece que vai nos partir. Nem o raio. No entanto, apesar de generosa e envolvente, a água também impõe suas dinâmicas específicas. Eis que a chuva se torna rio e vai ser preciso decidir entre nadar um pouco e sair, se afogar ou construir um barco. E aí você opta pelo barco. Agora já deveria dizer vocês optam. E vai ser à deriva, no flow? No início vai. Outras vezes, alguém vai negociar com o vento e manipular a vela. Até que vocês estarão um pouco cansades e decidirão ter um motor. A essa altura, pode ser que um só esteja querendo ser o capitão. Vocês negociarão. Vocês dois, vocês duas, três e, se há talento para isso, vocês mais. Vai dar certo e errado. Às vezes, bem errado. O certo mesmo é que já não se trata mais de pegar a bolsa e ir. E isso, ao contrário do que tudo indicava, passa a ser bem bom. É de um quentinho revigorante. Não importa o número, é uma pequena comunidade. Burguesa um tanto e, no melhor dos casos, cooperativista. Em todo caso, entre planejar as férias e a sobrevivência ao fim do mundo, vocês vão partilhar essa coisa, esse diamante puro das relações chamado intimidade.
O que você achou desse texto? Gostou? Então, você pode comentar ou apoiar financeiramente meu trabalho com a Apoia.se. Além de reconhecimento, seu apoio melhora minhas condições de sustentar este e outros projetos de escrita. Clique no link abaixo. Obrigada.
Todos os textos de Priscilla Machado de Souza estão AQUI.
Foto da Capa: Gerada por IA.

