Tem-se falado muito em defesa da soberania. Outros criticam a posição de não se curvar ao suserano de plantão em sua postura de “faça a Idade Média grande outra vez”. Há quem vocifere: “Mexa-se, ofereça um sinal de aproximação, aceite as condições que o ‘mais forte’ impõe”.
A relação entre soberania e vassalagem é fundamentalmente a diferença entre o poder político moderno e a organização social e política da Idade Média.
Soberania é o poder total e exclusivo de um Estado moderno sobre seu território. Substituiu as lealdades pessoais por uma autoridade centralizada, que cria e aplica leis para todos os cidadãos. A soberania é um conceito jurídico e político que se consolidou com o surgimento dos estados-nação modernos. Ela representa o poder supremo e incontestável de um Estado sobre seu território e sua população. A soberania tem duas dimensões principais: a interna, dentro de suas fronteiras, e a externa, quando nenhum outro país ou organização tem o direito de intervir em seus assuntos internos. Na teoria, todos os Estados soberanos são iguais entre si.
Na vassalagem, o poder era dividido entre “nobres”. A lealdade era pessoal e o poder fragmentado, com um vassalo jurando fidelidade a um suserano em troca de terras ou outros favorecimentos. Não existia um conceito de “Estado” como uma entidade única e centralizada.
Essa transição, em tese, marcou o fim de uma era de poder fracionado e o início do poder unificado do Estado. Obviamente, é preciso desconsiderar a singular constância do “centrão”.
Segundo especialistas de psicologia comportamental, em contextos formais, como nas relações de poder e liderança, ficar com as mãos no bolso pode ser interpretado como um sinal de inação e insegurança. No entanto, a mesma postura pode ter outras interpretações, dependendo da situação. Busca por conforto e uma forma de se proteger da ansiedade, timidez ou discrição, autoconfiança ou concentração, quando o indivíduo está apenas absorto em seus pensamentos.
Deixar as mãos nos bolsos pode também adquirir um significado político e histórico. Para os irlandeses, é um gesto de resistência à monarquia britânica, com raízes na Guerra da Independência da Irlanda (1919-1921). Durante o conflito, soldados do Rei George V receberam ordens para atirar em qualquer irlandês que não estivesse com as mãos expostas. Isso explica um momento icônico do ator Cillian Murphy, vencedor do Oscar por sua atuação em “Oppenheimer”, que sempre faz questão de declarar sua origem e identidade. Na première de “Dunkirk”, há alguns anos, Murphy manteve-se com as mãos nos bolsos em frente ao Príncipe Harry, num ato sutil que não passou despercebido por sua mensagem. Em 2009, Ronan O’Gara, atleta irlandês de rugby, havia feito o mesmo num encontro com a Rainha Elizabeth e diversos outros irlandeses têm repetido esse gesto. Não uma atitude de beligerância, mas sim de simbolismo histórico e genuinamente patriótico. Um lembrete ao respeito e de repúdio à prepotência.
Em 1987, a canção “Pelado (Nu com a mão no bolso)”, da banda Ultraje a Rigor, embalava a abertura da novela “Brega & Chique”. Numa de suas estrofes, o recado: “Indecente / É você ter que ficar / Despido de cultura / Daí não tem jeito / Quando a coisa fica dura / Sem roupa, sem saúde / Sem casa, tudo é tão imoral / A barriga pelada / É que é a vergonha nacional”.
Portar-se, até mesmo nu, com as mãos no bolso pode ser uma poderosa demonstração de força e coerência, expressando a não rendição à opressão do suserano, prepotente desde sempre, nem às desigualdades imensas que ainda vigoram.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

