Na mesma semana, formamos equipe outra vez em outra pauta, e aproveitei para tirar a maior onda com o Mauro. “Pô, tu vai subir rápido aqui na empresa agora que é fotógrafo E repórter. Vão amar poder te pagar um salário pra exercer duas funções. Aliás, tu recebeu muitos elogios pelo texto?” Ao que ele me respondeu: “Nem te faz porque tu está é aliviado que alguém pôs o nome de outra pessoa naquele texto, fala a verdade.” “Não, velho, nem pensa que tu me quebrou nessa. Tá certo que o texto tava uma merda, mas como era assinado por um fotógrafo, tenho certeza de que todo mundo deu um desconto e achou ‘é, pelo que podia ser, até tá bom”. Rimos muito a caminho de seja lá qual fosse a outra pauta.
Uns anos depois disso eu me tornei repórter esportivo. Mauro Vieira era um dos fotógrafos com um talento fantástico para a cobertura de esportes, e assim, muitas foram as vezes em que fomos parceiros de cobertura em jogos – principalmente do Inter, mas também eu pegava matérias para fazer do Grêmio às vezes. Mais de uma vez, fomos também cobrir a chegada ao aeroporto de alguma equipe adversária da dupla em algum embate importante ou decisivo em Porto Alegre.
Ao contrário do que você viu nos filmes, embora a pressão do prazo seja real, muito do que se faz (ou fazia, não posso definir o panorama hoje) em jornalismo diário é de um tédio monumental. Esperas longas, seja nas antessalas de gabinetes seja pela chegada de alguém. Viagens longas, muitos telefonemas e batidas nas portas, etc. Por isso, embora eu não seja exatamente um monge zen ou um modelo de paciência, sempre exercitei ao máximo manter a harmonia com os fotógrafos com quem saía para trabalhar (com os colegas de redação já nem tanto). Esse tipo de exercício era absolutamente desnecessário com Mauro Vieira. Bem-humorado, gentil, discreto, ele era capaz de contar longas histórias com tranquilidade e carisma – e ele as tinha às pencas. Fora sócio de um jornal em Viamão nos anos 1980, havia jogado futebol em certo período da vida, já havia conhecido praticamente todo mundo do meio. Ao mesmo tempo, Mauro também não tinha problema em curtir o silêncio quando ninguém estava a fim de falar, e se é uma espécie de elogio dizer que uma pessoa não torna os silêncios desconfortáveis, Mauro deveria ser um dos indivíduos mais elogiados da Terra.
Fiz mais de uma cobertura de praia com Mauro. Ele curtia tocar violão na janela do hotel depois que fechávamos as tarefas do dia – em uma felicidade que as novas gerações não conhecem mais, fechar, naqueles tempos de internet ainda engatinhando, era fechar mesmo, o que significava que depois das oito, nove, para algo exigir deslocamento de equipe só se fosse show na beira da orla ou alguma catástrofe de proporções monumentais. Nada de “faz um videozinho, manda uns stories” ou assemelhados. Assim, fechar o dia também equivalia dar uma fugida até os bares da beira da praia em Capão pra tomar chope e comer vieiras fritas. Numa dessas ocasiões, em 1998, penso, no último dia, quando já empacotávamos tudo para ir embora e darmos lugar a uma nova equipe que estava chegando, fomos tomar o último chope.
Mauro, sempre com sua câmera, como todos os fotógrafos que conheci, me chamou para a faixa de areia. Tinha ainda umas três poses para “queimar” no filme e queria gastá-las de uma vez para poder rebobinar e já ter o rolo pronto pra revelação quando chegássemos em Porto Alegre (imagino que os mais jovens achem que eu comecei a escrever em algum outro idioma neste trecho, mas só lamento). Como sói acontecer em Capão, ventava para um caralho. Mauro tirou uma foto minha com os cabelos batendo na cara. Uns dias depois, me mandou o resultado por e-mail com o “que bicho é esse” no assunto. Só aparecia parte da minha cara, o cabelo tapando a outra metade e o céu cinzento ao fundo. Eu gostei tanto daquela foto que fiz a Mauro uma promessa de que, se um dia lançasse um livro, eu o chamaria para fazer a foto da orelha. Cumpri a promessa quando lancei “Tudo o que Fizemos”, em 2009, e lá estava outra imagem do ainda jovem e cabeludo autor, feita pelo Mauro Vieira na escadaria da Zero Hora.
Feitas as contas, trabalhei por quase 20 anos no mesmo jornal que o Mauro. Entrei em 1996, ele já estava. Ele foi mandado embora em 2014 (nessa época, a decisão, sem nenhum motivo claro sustentável além de talvez eliminar um profissional que andava ganhando mais do que a casa queria pagar, abalou a todos nós que havíamos trabalhado com ele. Uns anos depois, outras pessoas de grande qualidade e caráter também foram demitidas, mas aí o processo era tão recorrente que não surpreendia mais ninguém). Nessa época, eu já havia virado editor, ainda conversávamos muito em corredores, no café, ou quando eu ia até a foto para discutir alguma ideia de pauta que eu ia pedir. Mauro também às vezes cumpria a função de chefe ocasionalmente quando alguém estava em férias (ele ou outro grande veterano também com coração gigante e um caráter magistral, Fernando Gomes.) Mas saíamos menos para trabalho em campo. Ainda trocávamos ideias, falávamos de livros, de filmes, de jornalismo. Mauro era um sujeito também muito criativo quando algum material especial deveria ser produzido.
Mauro Vieira vinha por aqueles anos experimentando retratos com a técnica “light paiting”: fotos tiradas com exposição superlenta, com o entrevistado imóvel por um longo tempo em um ambiente às escuras, e complementadas por formas ou sombras desenhadas com canetas luminosas coloridas em redor do fotografado. Algumas dessas imagens, feitas durante pautas, haviam ido parar na capa do jornal, na contracapa (lembro de uma em particular, de Júlio Zanotta, em uma reportagem feita pelo Renato Mendonça – aliás, correção porque minha memoria não é mais a mesma: essa matéria em específico era de 2013 e de autoria do outro setorista de teatro com quem trabalhei, o Fábio Prikladnicki ).
Mauro não dedicava essa técnica apenas aos entrevistados do jornal. Talvez com a ideia de fazer uma exposição, ou apenas pela curtição mesmo, convidou vários colegas para serem seus “modelos” em alguns desses retratos. E um dia veio falar comigo. Disse que gostaria de tirar uma foto minha num espaço com estantes de livros, porque ele fazia esses retratos como uma intepretação sua do fotografado. Eu topei, mas disse que a minha casa estava fora de questão – era um caos, meus livros nunca param nas estantes e sim se empilham desordenados, mas havia um lugar que eu frequentava e apreciava muito. Falei com a Carla Osorio, da Palavraria, e perguntei se poderíamos passar lá em um momento no fim do expediente e se eles topavam que, no fechar do estabelecimento, Mauro fizesse sua mágica. Eles toparam, só pediram para ver o processo. No fim do dia combinado, lá fomos nós. Diferentemente de algumas outras fotos dessa série, Mauro pirou menos. Enquanto eu abria um livro e mantinha imóvel, ele jogou as luzes sobre as estantes, distribuindo cores pelo ambiente. Como arremate, desenhou uma tímida fumacinha saindo da xícara na mesa à minha frente (foto abaixo).
Assim como aconteceu com praticamente todas as imagens que Mauro Vieira registrou de mim ao longo dos anos em que trabalhamos juntos, essa se tornou uma das minhas fotos favoritas.
Mauro morreu hoje, 12 de setembro, após sofrer um mal súbito, na idade inacreditavelmente precoce de 63 anos. Eu não o via em pessoa desde antes da pandemia, e trocamos algumas mensagens esparsas, mas, como acontece muito na vida, infelizmente, nos últimos tempos havíamos perdido contato. Mas uma coisa nunca mudou: sempre que alguma faísca inesperada de recordação dos meus tempos de redação trazia o Mauro para o teatro da memória, sempre era lembrança agradável, simpática, feliz. Porque assim era o Mauro. Uma pessoa agradável, um ser humano tranquilo, um grande profissional.
Falei bastante neste texto das intersecções entre o meu caminho e o do Mauro, e menos dele, particularmente. Mas ele, por seu talento e por ter marcado tão positivamente a vida de tantos que o conheceram, já está sendo objeto de outras manifestações como essa. Eu quis aqui dar um panorama pessoal, específico, fazer meu próprio “light painting” textual de um ser humano fabuloso.
Bah, Mauro, sem mentira. Três décadas depois, finalmente, com essa tu me quebrou.

Foto da Capa: Reprodução de Redes Sociais
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