Agora que começam a aparecer as primeiras pesquisas para as eleições presidenciais de 2026, justifica-se trazer uma perspectiva um pouco diferente das leituras mais comuns sobre os pleitos de 2018 e de 2022, e os desdobramentos que essa linha de pensamento pode projetar para o ano que vem. A esquerda, de um modo geral, acredita que a condenação e a prisão de Lula foram manobras planejadas para tirá-lo da corrida presidencial de 2018. Pode até ser. Mas, se foram, a leitura da direita em relação ao contexto de então também estava equivocada. Porque, embora a esquerda, em especial os petistas, acreditem que Lula teria ganho a eleição se não tivesse sido preso, e pode ser que a direita ache isso também, ele não ganharia. Porque quem ganhou a eleição de 2018 foi o antipetismo.
Retratemos o início de 2017 que, em relação às eleições de 2018, é um período análogo ao que estamos agora em relação a 2026. Nas pesquisas de intenção de voto realizadas antes da prisão de Lula, como a pesquisa Datafolha de 26 e 27 de abril de 2017, Lula aparecia em primeiro lugar em todas as simulações para o primeiro turno em que aparecia. Seu percentual era em torno de 30% em todos os cenários – percentual, aliás, semelhante ao de Jair Bolsonaro em simulações para o primeiro turno antes das eleições de 2022, o que representava o eleitorado fiel dos dois candidatos naqueles momentos. Em 2017, Lula também liderava quase todas as simulações para o segundo turno. O detalhe é o “quase”. O único cenário em que Lula perderia um eventual segundo turno seria em uma disputa contra Sérgio Moro. E quem era Sérgio Moro? O herói da Lava Jato, aquele que representou a ascensão do antipetismo e símbolo máximo desse sentimento à época. Nunca antes na história desse país, o antipetismo e o antilulismo haviam sido tão fortes. Só que Moro, que facilmente se elegeria presidente, aparentemente não teve coragem de se candidatar e preferiu, mais adiante, ser ministro da Justiça do capitão. Quem soube canalizar e aproveitar o antipetismo foi a campanha de Jair Bolsonaro. Usando métodos desleais, é verdade, a questão é que conseguiu angariar todos os votos de quem odiava Lula naquele momento. Lembro da minha perplexidade ao questionar as pessoas: “Ok, tu não gostas do Lula, mas por que Bolsonaro? Por que não outro candidato mais civilizado?”. A justificativa não existia, como para muitos não existe até hoje: sabiam apenas que tinham que seguir o caminho apontado pelas redes sociais. Redes daquele que, ao canalizar para si o antipetismo, acrescentou à receita ingredientes como mentira, desinformação e difamação. E, assim, tornou-se presidente.
Passemos para 2022. Quem venceu a eleição, Lula? Não. Quem venceu foi o antibolsonarismo. Caso contrário, o que fez críticos históricos e ferrenhos do PT, como o fundador do partido Novo, João Amoedo, e o historiador de direita Marco Antônio Villa, declararem voto em Lula? Certamente não se converteram ao petismo. Ocorre que Bolsonaro foi um presidente tão ruim, mas tão ruim, que mesmo antipetistas votaram em Lula. E olha que a vitória foi apertada… Alguns momentos de boca fechada teriam feito Bolsonaro se reeleger. Felizmente, pessoas minimamente sensatas, e não abduzidas pela bolha da extrema direita, não quiseram reviver o pesadelo que foi o período Bolsonaro. Que, por sinal, era previsível. Para quem estava acostumado a ouvir as falas do então presidente, o primeiro discurso de Lula após a anulação das condenações na Lava Jato, em 10 de março de 2021, soou como um discurso épico de Martin Luther King ou Nelson Mandela. Não que tivesse algo assim de tão especial, mas emocionou a todos por ser o discurso de um ser humano de verdade, não de alguém com desprezo por estes.
Chegamos ao presente. O fato principal hoje é a expectativa pelo julgamento de Jair Bolsonaro e dos demais acusados pela participação na trama golpista. Do lado da esquerda, é grande o desejo de ver o ex-presidente condenado. Mas há um problema. Por mais que esse seja o desfecho justo, a saída definitiva de Bolsonaro da corrida presidencial do ano que vem, ou seu escanteamento maior pelo campo ideológico, considerando que ele já está inelegível, aumenta as chances da extrema direita. Porque tudo indica que Bolsonaro não conseguiu recuperar, após a eleição de Lula, os eleitores perdidos entre 2018 e 2022. Pelo contrário, o ex-presidente parece estar mais desgastado, haja vista o fiasco da recente manifestação em Copacabana. Quando Bolsonaro é incluído, as primeiras pesquisas para 2026 mostram ele e Lula ambos com os fiéis 30% de votos, aproximadamente, nas simulações para o primeiro turno. Nas simulações para o segundo turno, a disputa é apertada.
Com Bolsonaro fora da disputa, a leitura importante é aquela que aponta Lula atrás da soma dos candidatos da direita. Ou seja, se a disputa for entre Lula e um candidato da direita, a briga vai ser difícil para o petista. Imaginemos Tarcísio de Freitas, por exemplo, hoje o nome mais forte para representar a direita. Tarcísio é visto como “mais moderado”, o que provavelmente lhe daria os votos dos críticos ao PT citados anteriormente, Marco Antônio Villa e João Amoedo, assim como de várias outras pessoas com posições políticas semelhantes. A suposta “maior moderação” também lhe traria o apoio de empresas e setores importantes e poderosos, que não precisariam, dentro dessa visão, carregar o embaraço de defender um candidato incivilizado como Bolsonaro.
À esquerda, chama a atenção o fato de as pesquisas realizadas até agora apresentarem diversos cenários com candidatos variados da direita, mas não apresentarem cenários com nomes alternativos ao de Lula. Seria pela falta de opções ou pela vontade deliberada de não lançar outros candidatos? De acordo com pesquisas recentes, Lula está experimentando uma queda significativa na sua aprovação, o que o deixa com poucas chances de se reeleger, pelo menos se o atual contexto se mantiver. E a máquina de denegrir a imagem do governo segue a mil, o que não dá muita esperança de uma recuperação. Soma-se a isso a dificuldade cada vez maior que será governar em meio ao agravamento das mudanças climáticas, dificultando o sucesso de um governo, mas isso já é outro assunto. A questão, de forma bem direta, é que o PT e os petistas precisam aceitar o lançamento de outros nomes para a sucessão presidencial. Não obstante todo o respeito que a trajetória política de Lula merece, ele não é o candidato ideal da esquerda para 2026.
Tudo leva a crer, portanto, que as próximas eleições não obedecerão à relação de criador e criatura entre Lula e Bolsonaro verificada nos dois pleitos anteriores. Resta saber o que virá.
Eduardo Baldauf é arquiteto e mestre em Sustentabilidade e Gestão de Riscos.
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Foto da Capa: Marcelo Camargo / Agência Brasil