Quando uma luta exige a mudança de uma cultura muito enraizada, é preciso cuidado para combater a causa, e não o sintoma. Um dos fins mais extremos do machismo, a morte ou os diferentes abusos da mulher, acontece porque há um assassino à solta, e é por causa da existência desse criminoso, culturalmente criado e aceito, que precisamos nos unir em combate. O Agosto Lilás encerrou com a 1ª Caminhada contra o Feminicídio, que fui prestigiar e, como de costume, saí um pouco incomodado.
É sempre delicado entrar em searas pesadas e pontuais, mas me parece que muito do discurso apresentado insiste em focar na vítima, e não no agressor. O feminicídio (como agressão de um gênero contra o outro) existe porque a estupidez estrutural do patriarcado faz do homem um ser fraco e inseguro, incapaz de encarar a realidade de frente. Somos ensinados, homens e mulheres, que algumas vidas são passíveis de serem eliminadas sem muita culpa, e as mulheres entram nessa lista.
Por mais que, sim, seja uma pauta das e para as mulheres, e toda iniciativa deve ser encarada com seriedade, ao fim e ao cabo, não são elas (vocês) que precisam de ajuda. É no “macho” que está o problema. Ações de apoio às vítimas são fundamentais, não é essa postura que questiono. Lei Maria da Penha, medidas protetivas, delegacias especializadas, atendimentos médicos, psicológicos, campanhas, independência financeira e muito mais… tudo é parte da urgência de eliminar o risco de vida e dar o suporte para o distanciamento em relação ao abusador. E, de novo, o risco existe porque há um assassino em potencial à solta.
O texto que considero machista é o de que as mulheres precisam de algo: proteção, escudo, ombro, suporte, que são mortas por quem deveria protegê-las. Pelo que sinto no caminho, a mulher quer simplesmente “ser”, sem ter que se cuidar, se explicar, justificar, preocupar ou ficar atenta à estupidez alheia. O combate ao feminicídio está na mudança da cultura de que a sociedade é dos homens e eles vão aceitar e respeitar as mulheres, como ato máximo de compreensão. Não, a sociedade não tem gênero e é para quem não respeita as diferenças que devemos apontar o dedo.
Falando de mim, crio uma filha, já acompanhei amiga à delegacia para registrar queixa contra abusador e até já tive minha “macheza” questionada por não ter a atitude predadora entendida como padrão (inclusive por mulheres, diga-se). Não é a primeira causa que defendo sem poder sentir na pele ou na alma a dor real e, como sempre, posso tropeçar. Agora, acredito que a gente tem que viver o mundo que queremos enquanto enfrentamos o mundo que vivemos, e assim sigo, cercado de gente livre. Toda iniciativa pela vida e autonomia das mulheres é necessária e tem meu afeto, mas é basilar termos a noção de que quem tem problemas são os homens, incapazes de aceitar a própria vulnerabilidade e a força natural do sexo oposto, ou qualquer outro, inclusive.
André Furtado é, por origem, jornalista; por prática, comunicador, de várias formas e meios. Na vida, curioso; nos Irmãos Rocha!, guitarrista. No POA Inquieta, articulador do Spin Música.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

