Conheci uma pessoa que me disse ter vivido sempre na mesma casa. Para alguns isso pode significar uma vida de estabilidade, para mim, seria muito monótona. Se você é um aventureiro de verdade, um caçador de fortes emoções, eu tenho o combo perfeito: faça uma obra ou reforma antes de se mudar. Aí, sim, você alcançará o Nirvana do Estresse. Segura a pipoca que vou contar a minha última temporada de emoções, que só se encerrou esta semana.
Vamos começar pela obra. Compramos um apartamento “na planta” — prometido para 3 anos, entregue em 4. Apartamento novo pronto para entrar e morar é coisa do passado, hoje os apartamentos são entregues sem piso, sem teto (digo, na laje), sem pias, sem metais. Você compra a caixa e descobre que é você quem monta o brinquedo. Eu já tinha experiência, há 20 anos construí uma casa, então resolvi minimizar o estresse e contratamos uma arquiteta, engenharia, móveis planejados… pacote completo. Ajuda, sim. Evita problemas? Spoiler: não!
A tecnologia evoluiu muito nestes 20 anos. Hoje, os móveis já vêm sem puxadores! É tudo à base de “cavas” e “buracos”. Uma economia genial, desde que suas unhas sejam fortes. Por outro lado, as lâmpadas LED se multiplicaram como coelhos. Tem LED embaixo do armário, dentro do box do banheiro, no teto… cheguei a olhar dentro do vaso sanitário, só para garantir que não havia uma iluminação dramática para o momento. E os aparelhos de ar-condicionado agora têm Inteligência Artificial! O manual diz que ele aprende com os seus hábitos e toma decisões sozinho para economizar energia. Uma pena que a decisão de pagar a conta de energia ainda seja minha, um mero humano.
Com a obra “quase” concluída, entram em cena a marcenaria, o rapaz da pedra, o hidráulico, o eletricista… e… surpresa! Deu ruim. Um aponta o dedo para o outro. “Isso aqui não devia ter sido feito assim!” Tá, e agora, o que a gente faz? Nossa salvação foi um “faz-tudo” da empresa de engenharia, um sujeito com mil e uma habilidades, que corta, emenda, improvisa e faz o mundo caber. O cara é o MacGyver da construção civil (como diz Leandro Karnal, para os leitores com menos de 50 anos, depois o tio explica quem foi o MacGyver).
Combinei com o engenheiro a data da mudança. Ele sorriu e falou: “Até lá tá tudo pronto, fica tranquilo!”. No dia D, entramos no apartamento com o pessoal da obra ainda colocando os rodapés, instalando chuveiro e os retoques ficaram para depois.
Agora, vamos às emoções da mudança. Empacotar se transformou numa viagem no tempo! Encontramos relíquias de uma era passada: “Onde foi que compramos isso?”, “De onde veio aquilo?”. Foi uma ótima oportunidade para descartar boa parte das coisas que não usávamos. Mas, lá no fundo, tinha aquela vozinha chata questionando: “E se um dia precisarmos?”. Não dê ouvidos para ela!
Mudamos para um apê menor, então a missão era criar espaço. Compramos um “box”, aquele espaço que vai embaixo do colchão e que vira uma espécie de porão para guardar o que raramente utilizamos. Chegou todo embalado… depois de instalado fui conferir e descobri que era um cavalo de Troia, tinha uma barata bem quietinha lá dentro. Agradeci o brinde e pedi que o entregador levasse a visitante de volta.
Desempacotar e encontrar um novo lugar para cada coisa é outro desafio. “Onde está aquele negócio que eu preciso?” Em qual gaveta estão as minhas ferramentas? Ouve-se uma voz: “Não sei, devem estar por aí, procura”. Ufa! Isso me ajudou muito! Não tem GPS que encontre determinadas coisas. Comprei uma chave de fendas, e não é que no outro dia a antiga apareceu? Acho que ela queria uma amiga, por isso se escondeu.
Preciso confessar: mesmo com os perrengues, tivemos sorte com os prestadores de serviço, todos muito gentis e solícitos. Quando algo deu errado, resolveram na paz. A lição de casa é: se vai fazer obra, prepare-se para demorar mais do que o previsto e custar o bem mais do que o orçamento. Se vai se mudar, saiba que empacotar e desempacotar sua vida dá um trabalho danado.
No final das contas, aprendi que obra e mudança não são apenas sobre colocar piso ou trocar de endereço. É um processo que, ao forçar você a olhar para cada tralha acumulada e cada memória empacotada, responde à pergunta mais essencial: o que você realmente precisa para ser feliz? O que sobra, no final, a melhor recompensa não é o apartamento pronto, mas a pessoa que se tornou para conquistá-lo.
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Foto da Capa: Freepik

