Quando navego pela internet, costumo buscar conteúdos que provoquem o pensamento e tenham alguma profundidade. Nesta semana, me deparei com uma palestra do TEDx São Paulo de 2025, apresentada pelo psicanalista Emanuel Aragão, que me fez refletir sobre um comportamento muito comum: por que tantas pessoas passam horas assistindo a vídeos de gatinhos, fofocas, memes e curiosidades sobre celebridades?
O tema central da palestra é o conhecido ciclo “busca-esforço-recompensa”. Mas o diferencial de Aragão é a forma didática e histórica com que ele aborda esse conceito. Ele começa lembrando uma verdade simples: a vida é difícil e tudo exige esforço. No entanto, aquilo que é essencial para a sobrevivência tem se tornado cada vez mais acessível. Para ilustrar, ele compara o que nossos ancestrais precisavam enfrentar para matar a fome com a facilidade de hoje. Lá no tempo do Homo habilis, quando o sujeito sentia fome, ele imaginava uma maçã e saía em busca, enfrentava predadores, chuva, outras tribos… e só depois de muito perrengue, conseguia a tal maçã. Imagine a primeira mordida com a frutose entrando em contato com as suas papilas gustativas. Ele sentia um enorme prazer, a recompensa vinha depois do esforço. O cérebro vibrava.
A explicação, segundo Aragão, está nas chamadas vias dopaminérgicas do cérebro, os circuitos responsáveis pela nossa motivação. A dopamina é o que nos impulsiona a buscar algo de que precisamos, criando uma expectativa positiva. Mas, se não houver uma necessidade real, esse sistema buscará outras novidades, novos desafios e emoções. É por isso que sentimos vontade de viajar ou conhecer lugares novos, mesmo que não precisemos disso para sobreviver. Não é uma necessidade prática visitar Nova York ou Paris, mas algo em nós deseja experiências inéditas.
Depois do Homo habilis, vieram o Homo erectus, o Neandertal, o Homo sapiens… e há cerca de 12 mil anos, a agricultura. A motivação passou a ser plantar, e a recompensa, a colheita, que só viria muito tempo depois. A busca e a recompensa começaram a se distanciar. No século VII a.C., o ser humano inventou o dinheiro. Agora, ele já não se esforçava para conseguir maçãs, mas para conseguir algo intermediário, o dinheiro, que, por sua vez, permitiria a compra de maçãs ou qualquer outra coisa. A busca se tornou mais abstrata.
Com a revolução industrial, as atividades repetitivas tomaram conta do trabalho. O ser humano já não buscava, já não descobria. E essa necessidade cerebral por novidades começava a ser frustrada, pois o dia a dia se resumia a repetir tarefas para obter dinheiro. No século XX, o desejo passou a girar em torno do consumo: trabalhar mais para comprar os objetos que supostamente nos fariam felizes. Mas muitas vezes a recompensa nunca chegava. A pessoa se esforçava muito, imaginava tudo e conseguia pouco.
Em 1960, iniciou uma nova revolução: o surgimento da internet, que se popularizou nos anos 90. E, em 2007, com o lançamento do iPhone, a internet coube no nosso bolso. A partir daí, todas as novidades do mundo estavam ao alcance das nossas mãos, sem que precisássemos sair da cama.
Hoje, em 2025, quando sentimos fome, basta um clique. Em minutos, o iFood, Rappi, Uber Eats ou Zé Delivery trazem tudo até nossa porta. A comida chega sem riscos, sem esforço, sem surpresa. A recompensa está garantida, mas o prazer não. Porque prazer não nasce da recompensa pura e simples, mas da jornada que a antecede. Enquanto isso, todo nosso esforço vai para o trabalho repetitivo, mecânico, muitas vezes vazio. A nossa necessidade de novidades, alimentada pela via dopaminérgica, passa a buscar distrações rápidas e fúteis na internet. É uma busca desenfreada, sem propósito, sem a devida recompensa.
Resultado? Vivemos uma vida fragmentada: busca sem recompensa, recompensa sem esforço, esforço sem novidade. Isso gera uma sensação de exaustão, de vida confortável, porém sem sentido, como define Emanuel Aragão. Porque o sentido está em reunir esses três elementos: buscar algo, se esforçar por isso, e enfim, ser recompensado. Quando isso não acontece, surgem a ansiedade, o burnout, a compulsão e o vazio.
O que fazer, então? Aragão propõe um exercício simples: da próxima vez que sentir fome, deixe o celular em casa. Caminhe até o mercado mais próximo. No caminho, pense nos ingredientes que vai comprar. Quando retornar, imagine o cheiro da comida que vais preparar. Cozinhe com atenção, percebendo cada etapa do processo. E depois, sem ligar nenhuma tela, saboreie sua refeição.
Essa pequena prática reconecta busca, esforço e recompensa. E, com isso, resgata o prazer, o verdadeiro, aquele que dá sentido à existência. Difícil? Com certeza. Mas talvez seja um caminho possível para reencontrar a leveza perdida no meio da comodidade.
Referências:
TEDx SaoPaulo - O estranho caso da vida confortável e sem sentido / Emanuel Aragão
Todos os textos de Luis Felipe Nascimento estão AQUI.
Foto da Capa: Freepik

