A vida é um jogo multifacetado e a lógica primordial deveria ser cuidar do corpo como se fosse viver uns 200 anos (com independência e autonomia) e da alma como se a vida terminasse amanhã! Para a alma o direcionamento parece ser em aprender a beleza do detalhe no meio do caos, conseguir ‘deixar para lá’ tudo aquilo que ‘não nos compete’ e sorrir do acaso… Para o corpo a tarefa deveria ser simples, já que ele faz parte da natureza. A fome, a saciedade, o sono são sinais fisiológicos natos de cada um, mesmo com suas particularidades, pois o organismo humano naturalmente pede alimento e água para gerar energia e viver.
Mas a evolução da sociedade distanciou essa percepção natural ao instituir protocolos alimentares como a hora de comer, de dormir e de trabalhar. Todos esses cerimoniais acabaram por subjugar as pistas em que o corpo demonstrava a necessidade de alimento para ir à caça como ocorria com nossos ancestrais. E a resposta disso não parece muito boa frente a tantos problemas de saúde enfrentados pela população atualmente. Vejamos que comemos porque é hora e não porque precisamos, dormimos porque é hora e não porque precisamos. Bebemos sucos ao invés de comer a fruta porque na caixinha é mais fácil. Isso sem falar de práticas físicas corriqueiras que foram deixadas de lado pelos controles, elevadores, os carros. Esses fatos somados à grande oferta de alimentos ultraprocessados e a lógica atual do estoque de comida nas casas aumentou o consumo a qualquer hora como uma ‘receita’ geral de que isso é estar bem, viver bem e livre do sofrimento de sentir fome. O primeiro resultado disso parece ser uma superalimentação longe da natural e o corpo, mesmo evoluído, mostra não responder bem a esse jogo. Nessa perspectiva, que fome instituída é essa que vivemos e para onde ela nos leva? Hoje, mais de 50 milhões de brasileiros têm alguma doença crônica (e vamos incluir as crianças nesses números) como hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares e um aumento de cânceres.
Na sequência da análise, é possível perceber que não é somente a formalidade dos protocolos alimentares que nos distancia da saúde do corpo. Toda correria multitarefa da sociedade atual criou outros tipos de fome além daquela gerada pela regulamentação da necessidade fisiológica alimentar de sobrevivência. Uma delas, entendo ser aquela gerada pela pressão emocional que o estresse diário provoca, que se percebe tanto em adultos como crianças. Essa, busca uma comida emocional (geralmente envolvendo doces e petiscos) como meio de conforto e distração para lidar com as emoções, num alívio para tristezas, ansiedades e angústias que o viver hoje provoca, trazendo sensação de alívio temporário, que é constantemente acionado a cada novo momento de estresse.
Então, a norma e a oferta de alimentos para estocar em casa, associada ao estresse cotidiano gerou hábitos como beliscar o tempo todo mesmo sem fome porque se precisa ‘saciar’ a ansiedade da vida com petiscos ‘bons’ e não com um brócolis. Passamos a deixar de produzir comida de verdade porque no super tem o produto pronto e temos hora e pressa. Passamos a consumir mais farinhas, bolachas e massas, e as ter em maior quantidade no armário do que verduras na geladeira porque é mais prático na correria e dura muito no armário.
É fato que nesse ritmo o corpo adoece e engorda ou vice-versa. É o resultado das muitas fomes te dizendo que teu ‘corpo’ físico e emocional pede alimento. A comida, então, surge com outra finalidade: aplacar aflições e angústias e todas as sensações que são mais ‘exigentes’ do que a fisiologia já que essa está adormecida pela normatização. Assim, se passa a ingerir tudo e qualquer coisa que tenha no armário para aplacar ansiedades diárias pelo conforto que a comida oferece. É um processo não perceptível em todo o local do mundo atual.
Um exemplo simples surge no fato de ir em uma lancheria para apenas um café. Com ele, em muitos estabelecimentos, se recebe uma bolachinha ou bolinho não solicitado (faz parte do cafezinho) que, sem vontade, mas, porque estava ali, foi comido. Ou num rodízio de pizza que entras faminta e na primeira fatia a fome intensa aplaca, na segunda alivia, na terceira satisfaz, na quarta com um doce é o suficiente. Mas o rodízio continua e com ele outras fatias se vão. O foco não é mais a fome, é o contexto que subjuga a fisiologia.
O mesmo pode ocorrer porque é hora de almoço ou jantar, se come pelo ato, não porque existe fome. Ou naquele dia que só o doce abraça, e surge a sorveteria de memórias. Ali o sorvete pequeno com uma bola pode custar aproximadamente 10 reais; o grande que tem duas bolas pode custar aproximadamente 16 reais. Lógico que o grande vale mais a pena, certo? Mas tua vontade/necessidade emocional que compartilha lembrança sacia no sorvete pequeno. O que acontece? A lógica matemática leva ao sorvete grande. E no corpo? O resultado é mais estoque de gordura, que pode gerar vários distúrbios físicos, que gera mais ansiedade, que gera mais petisco afetivo, que gera mais consumo, num círculo vicioso imperceptível. A grande realidade é que nesses momentos e em tantos outros se começa a jogar contra o próprio corpo, contra a autoestima, contra a saúde e o respeito próprio, promovendo um grande estoque de gordura, de conservantes, estabilizantes, corantes, de produtos ruins que, quando nos damos conta, precisamos promover uma batalha nada fácil para tentar devolver a saúde ao corpo.
E como podemos nos auto ajudar a controlar a fome inconsciente, já que ela tem grande ação no nosso dia a dia? Uma alternativa está em observar realmente o montante da ingestão de açúcar e farinhas diários. O quanto e o que eu estou comendo? De modo resumido, é nesses momentos que a insulina se eleva no corpo. É ativada pelo carboidrato consumido e é ela que gera sinais contínuos de fome no cérebro, já que a grande quantidade impede que a energia do alimento seja usada corretamente. Assim, quanto maior o nível de insulina no corpo, mais rápido a fome volta. Nessa análise, aproveitem para perceber naquilo que vocês comem: carboidrato pensando ser fibra? Por exemplo a aveia: a farinha de aveia é puro carboidrato e, como a farinha de trigo, ela gera mais insulina; o farelo de aveia é pura fibra, logo, gera mais saciedade e evita pico de insulina. Perceba que a saúde está no detalhe da observação consciente.
Assim, direcionar aos ‘200 anos’ é começar a pensar em comida, comida +. Entender que comida de verdade não é sorvete, milkshake, brigadeiro: isso é afetivo, compensatório, emocional. E todos esses, creiam, tem o seu valor na medida que forem conscientes para aquele momento que só o doce abraça e é válido! Mas, ‘comida +’ importa ao corpo, sua estrutura, sua funcionalidade, seu crescimento e sua manutenção e, ela não engorda. O que engorda é beliscar constantemente o que não é comida, já que é difícil ver alguém beliscando brócolis, mamão, ameixa.. Para os 200 anos vamos lembrar que nossa natureza não é a doença, mas a condução para a saúde que pode estar no direcionamento do olhar ao comer com propósito de fome real ou vontade real, sem se deixar levar pelo emocional ou automático.
Denise Preussler dos Santos é jornalista (Unisinos), com mais de 180 artigos publicados em jornais do interior. Tem publicações na Revista Teias, Labrys, Revistas Eletrônicas Puc, Revista de Educação, Linguagem e Literatura-UEG Inhumas. É mestra em Educação (Ulbra) e terapeuta integrativa. Atualmente, cursa Nutrição (Uniasselvi).
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