Imagine-se num restaurante. Você escolhe um prato e depois a sobremesa. Tudo parece delicioso, irresistível e, sem perceber, acaba repetindo ambos. A conta chega: o valor é o dobro do esperado. Estranhamente, você não se revolta, sai dali com o desejo de voltar. Mais tarde, descobre que a comida continha uma substância que desperta o desejo de não parar de consumir. Não seria lógico pensar que isso deveria ser proibido? Alguns diriam que sim, afinal, essa substância foi colocada sem o seu consentimento. Outros, porém, defenderiam que “ninguém é obrigado a ir ao restaurante”. Essa história é ficção, mas, quando trocamos o restaurante pelas redes sociais, a ficção se torna realidade.
Adultos, jovens e crianças entram no TikTok, Instagram e outras redes com a intenção de “dar só uma olhadinha”. Porém, o que era para ser alguns minutinhos se transforma em horas, como se estivéssemos presos a um feitiço. O escritor Gurwinder Bhogal, em How Social Media Shortens Your Life, mostra como tecnologia e psicologia se unem para manipular o nosso tempo e o nosso comportamento.
Você já percebeu que sentimos de formas distintas a passagem do tempo? Nas férias, ele corre rápido; já numa sala de espera, cada minuto parece uma hora. As redes sociais sabem explorar isso. Inspiraram-se nos cassinos, mestres em fazer o visitante perder a noção do tempo. É por isso que não há janelas nos cassinos de Las Vegas: quem joga não percebe se é noite ou dia. Os corredores são labirintos, e até o caminho para o banheiro é uma armadilha, cheio de máquinas piscando. No fim, o jogador anda em círculos, no piloto automático, agindo por impulso e não por intenção.
Os “engenheiros da atenção”, que trabalham para as big techs, aprimoraram as técnicas de levar o usuário a perder a noção do tempo e do motivo pelo qual entrou ali. Eles transformaram nossos feeds em labirintos de rolagem infinita. Cada deslizar do dedo é uma promessa de novidade, cada curtida ou comentário recebido funciona como uma ficha devolvida pelo caça-níquel digital. Na próxima vez virá mais! Você nunca chega ao fim, porque o fim não existe.
O nosso cérebro foi moldado para aprender com histórias lineares, onde cada capítulo se conecta com o anterior. Mas as redes sociais são o contrário, não existe uma narrativa. Rolar o feed é como “ler um livro em meio a uma ventania, com as páginas voando e mudando de cena abruptamente, impedindo que o leitor perceba uma conexão coerente”. Absorvemos, mas não guardamos. Você se recorda de detalhes de um livro lido anos atrás, mas mal consegue dizer o que viu ontem no Instagram.
E ainda assim voltamos, porque foi planejado para ser assim. A sensação de estar perdendo algo nos persegue quando ficamos longe das telas. Até as assistentes virtuais (Alexa, Siri, Google) e ChatGPT aprenderam a nunca encerrar uma conversa, terminam uma resposta com uma pergunta, criando ganchos para “continuar o papo”.
E, assim, nossa vida se torna um livro desfolhado ao vento. Não perdemos apenas tempo: perdemos saúde, sono, equilíbrio emocional. Crianças e adolescentes já mostram sinais físicos dessa aceleração artificial do tempo; estudos revelam que quanto mais tempo diante das telas, mais rápido o corpo envelhece.
Mas há saídas: conversar sem pressa, caminhar sem rumo, ler livros que não cabem num feed, escrever cartas, diários, ouvir música sem dividir a atenção com notificações. Cada uma dessas escolhas devolve não só o tempo, mas a vida que ele carrega.
Se você concorda que aquele restaurante fictício deveria ser regulamentado por colocar substâncias viciantes em sua comida, então apoie a regulamentação das redes sociais. O que está em jogo não é apenas o nosso tempo, é a nossa história, é a nossa memória, é quem somos.
Referências:
- How Social Media Shortens Your Life. Gurwinder Bhogal.
- Certainty is the Death of Thought | Gurwinder Bhogal | Episode 155.
Todos os textos de Luiz Felipe Nascimento estão AQUI.
Foto da Capa: Gerada por IA.

