Estamos em tempo de verão, tempo de férias para a criançada. Dia desses, conversando com a minha sobrinha de sete anos, ela contava que o tempo passava “muito devagarinho” para ela. Comigo, na infância, a sensação era a mesma.
Lembro de morrer de saudade da escola e dos meus colegas de sala de aula, pois as férias tinham sido intermináveis! Mesmo que cada dia delas tivesse sido repleto de novidades: havia me embrenhado no mato, aprendido a tirar leite das vacas, ido me esconder no alto do cinamomo para jogar suas bolinhas nos que passavam embaixo, jogado carteado, tomado banho de chuva. Tinham sido dias cheios de brincadeiras e delícias.
E agora? Se você for como eu, e como todos os adultos que conheço, pode ter a sensação de que o tempo passa mais rápido do que consegue acompanhar. Em uma pesquisa de 2024, psicólogos descobriram que a maioria das pessoas sentia que as festas de fim de ano chegavam mais depressa a cada ano, Natal após Natal após Natal.
Por que será que isso acontece conforme a gente envelhece? Será que é possível reaprender essa sensação da infância de que o tempo passa lentamente?
O tempo é relativo
Conforme reportagem veiculada na edição da Revista Times especial sobre longevidade, divulgada em 13 de janeiro deste ano, “diversos fatores provavelmente criam a sensação de que o tempo ou dura para sempre ou voa”, diz Christopher Dwyer, psicólogo e pesquisador da Universidade Tecnológica de Shannon, em Athlone, Irlanda. O primeiro é que, para as crianças, um ano — ou mesmo três meses — representa objetivamente uma fração enorme do tempo que passam no planeta. Um único período de férias de verão corresponde a uma parte substancial de toda a sua experiência de vida. Ao mesmo tempo, as crianças pequenas mudam rapidamente, então a pessoa que saiu de férias em maio pode parecer uma estranha para aquela que volta para a escola em setembro. Com tanta evolução, não é de se admirar que a infância pareça plena e longa.
Além disso, as crianças estão experimentando muitas coisas pela primeira vez, destaca Steven Taylor, psicólogo da Universidade Leeds Beckett e autor do livro “Time Expansion Experiences” (Experiências de Expansão do Tempo). “Novas experiências alongam o tempo”, afirma ele. O primeiro picolé de chocolate, então, provavelmente pareceu uma revelação. Se aquele dia também incluísse uma primeira visita ao zoológico — com direito a primeiros macacos, primeiras girafas e primeiro tamanduá-bandeira — não é difícil entender como a experiência pode ter sido expansiva.”
As crianças não são as únicas capazes de experimentar esse tipo de dilatação temporal satisfatória.
O Prof. Taylor traz como exemplo o período em que se mudou para outro país durante a adolescência e, quando voltou, teve a sensação de que havia se passado muito mais tempo do que apenas os oito meses de ausência. Afinal, tinham sido meses de inúmeras novas experiências, novos amigos, nova casa, nova escola, nova língua, enquanto os amigos continuavam fazendo “as mesmas coisas e indo nos mesmos lugares”.
Isso me conectou com as experiências de adolescência que vivi, quando minha família precisou mudar de cidade algumas vezes, e sentia essa sensação de estranhamento e dilatação temporal (que não conseguia nomear).
Nossas memórias são moldadas pelas emoções. Não importa qual seja a memória, sempre haverá um grau de emoção colocado nela.
Não é à toa que lembramos tão claramente das circunstâncias do nascimento de um/a filho/a, ou do nosso casamento, ou da morte de um familiar querido, ou quando recebemos a comunicação de nosso desligamento do trabalho. Elas estão repletas de emoção.
Quando imaginamos desacelerar o tempo, no geral pensamos em um sentimento de plenitude que dure por dias. No entanto, a expansão do tempo pode se dar também de forma negativa.
Quando estamos vivendo um momento de risco de vida, a sensação é de que minutos duram horas. Quando infartei, contados no relógio, foram menos de 20 minutos entre eu desmaiar e ir para o hospital, mas a sensação foi de que duraram horas, posso te contar cada detalhe passado e percebido naqueles minutos. A mesma coisa me aconteceu quando me acidentei aos oito meses e meio de gravidez da minha filha mais velha. Tudo se passou em minutos, mas para mim ainda parecem horas.
Outra maneira de sentir “dilatação de tempo” é quando estamos muito ansiosos ou entediados. Quem aí já não experimentou essa sensação numa fila, virtual ou presencial? Ou aguardando uma mensagem de alguém? Esperando o resultado de um exame. As horas, os dias não passam. Tudo se congela.
No entanto, quando falamos em “passar o tempo devagarinho”, não é esse tipo de sensação que a gente deseja, né? Como fazer, então?
Os especialistas sugerem fazer o que as crianças fazem: buscar novidades. Pra elas é fácil, claro, tudo é novidade. Mas e pra a gente, como pode ser?
Faça uma viagem, por exemplo, pode ser de avião para um novo país ou a pé para um novo bairro. O importante é a quantidade de novas informações e sensações satisfatórias de “expansão do tempo” que terá.
Dicas? Tente (re)aprender algo novo, seja bordar, consertar carros, costurar, pintar, fotografar, fazer colagem, participar de grupos de leitura, cinema, etc. A cada nova experiência e cada vez que estiver realizando-as, a expansão de tempo e a mágica do tempo estarão passando lentamente, se farão Esse ano iniciei o projeto de aprender a costurar. As manhãs em que faço as aulas possuem mais do que as quatro horas que contam o relógio.
Mais? Experimente chamar suas amigas e amigos para encontros temáticos, por exemplo! Dia de Jogos, do Cinema, do Carteado, … Ano passado, com um grupo de amigas, fizemos uma “Noite do Pijama”. A experiência foi tão alegre, relembrando brincadeiras antigas, dando risada uma das outras, que quando vimos já era madrugada alta.
Outro exemplo? Tente colocar um ingrediente novo naquela receita conhecida. Provavelmente, esse jantar será mais memorável do que outro qualquer com os ingredientes comuns.
Como cita a reportagem da Revista Times: “No fim das contas, o que importa é a memória. A sensação de que o tempo está passando mais devagar ocorre em retrospectiva, ao relembrar o tempo bem aproveitado.”
Outra recomendação prática dos especialistas é quebrar a rotina. Mesmo buscando e realizando novos hobbies, pouco eficaz se isso se tornar uma “prisão”.
Nosso cérebro e natureza humana lutam contra novidades. A tendência é a gente se acomodar às rotinas, buscar atalhos, acomodar-se. Como diz o Professor Taylor: “Parece haver um mecanismo em nossas mentes que desliga nossa atenção para o novo. Se você vai para um ambiente novo, é fantasticamente real por alguns dias, talvez até algumas semanas. É realmente estimulante e emocionante. Mas, em certo ponto, você se acostuma. Sua mente elimina a novidade. Torna-se familiar, talvez até um pouco monótono.”
Então, é possível quebrar a rotina em meio ao cotidiano?
Professor Taylor acredita que sim. “Você não precisa se movimentar fisicamente o tempo todo para desacelerar o tempo. No fim das contas, tudo depende do seu estado de consciência, ou do seu estado de espírito”, diz ele. “Há pesquisas que mostram que, se você cultivar um estado de atenção plena, uma espécie de abertura à sua experiência, isso também desacelerará o tempo.”
Nesse ponto, voltamos a nos inspirar nas crianças e no encantamento delas para o mundo, para encontrar nossa resposta. Experimentando um olhar curioso para o céu azul ou chuvoso, perguntas sobre flores, árvores e passarinhos, sorrisos gratuitos para estranhos, por todos os dias que nos restam.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

