Crônica que escrevi em uma caderneta que ganhei da Marlene, minha irmã, em um dia ensolarado de inverno, 04 de junho de 2014. Na época, planejávamos o nosso livro “E fomos ser gauche na vida”, que acabei escrevendo sozinha. Ao reler, me emocionei.
Nasceram. Eram tão pequenas, mas tão pequenas, que na vila ouvia-se um murmúrio constante: “Não vão se criar”. Primeiro uma. E 14 meses depois, a outra. A família só se deu conta de que aquele tamanho apontava para algum problema com o nascimento da segunda. Mãos gordinhas. Dedos curtos. Cabeça grande. Braços curtos e levemente tortos. Pernas curtas. Pareciam iguais. Causavam estranheza na comunidade, mas os familiares agiam com naturalidade, como tinha que ser. Com o passar do tempo, a diferença que apresentavam foi se acentuando. Eram crianças que cresciam muito pouco. Espertas. Saudáveis. Mínimas. O que se passava?
Falou-se pela primeira vez na possibilidade de serem anãs*. Mas o que era bem isso? Não se desenvolveriam? Não cresceriam como? Física, emocional, intelectualmente? Seriam dependentes pelo resto de suas vidas? O que fazer?
Os pais foram em busca de respostas e as encontraram depois de passar por alguns médicos e exames. As meninas tinham nanismo, sim! De fato, não cresceriam como as outras crianças. De fato, teriam algumas dificuldades físicas. De fato, precisariam de alguns cuidados especiais. Mas o desenvolvimento psíquico, intelectual, mental, tudo indicava, seria tranquilo. O emocional, bem, o emocional dependeria de uma série de fatores, especialmente da conduta da família. Não havia remédios e nenhum tipo de tratamento. O diagnóstico era absolutamente claro e os médicos não vacilaram no recado – o tipo de nanismo que tinham era uma questão física, que a genética poderia explicar. Os testes não indicaram nenhum outro problema. Logo, vida normal, na medida do possível.
As meninas são espertas, inteligentes e devem ser tratadas com naturalidade.
E assim foi!
Desenvolveram-se cercadas pela família, brincando com a legião de primos, cuidadas pelas tias, pelos amigos, com a atenção necessária. Sofriam com os olhares, sim! Com os dedos apontando, as piadas, os risinhos escondidos, o espanto de alguns e o medo de outros. Até tentaram ser o mais invisíveis possível, mas tinham um desejo grande de viver. Eram curiosas e, quando viram, estavam no mundo.
Anos depois, uma frase em uma camiseta as encantou – “Eu sou do tamanho daquilo que vejo e não do tamanho da minha altura”, de Fernando Pessoa, atribuída ao seu heterônimo Alberto Caeiro. Encontramos a camiseta na Livraria Bamboletras*, no Centro Comercial Olaria, que muito frequentávamos. A identificação foi imediata. Compramos, é claro! E seguimos, com os olhos bem abertos.
Notas:
*Hoje não se usa mais a palavra “anã/anão”, de tão contaminada que ficou pelo uso preconceituoso em todos os sentidos. Usamos pessoa com nanismo.
*Não sei se a Lu Vilella, na época proprietária da Bamboletras, lembra. Foi ela que nos mostrou a camiseta.
– Texto escrito em 04/06/2014 e releitura em dezembro de 2025.
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Foto da Capa: Instituto Nacional do Nanismo

