Lá no tempo do “científico” (o nome chique que se dava ao ensino médio), a turma era muito unida, compartilhávamos dramas, fazíamos muitas festas, muitas gargalhadas e, ao final do terceiro ano, promessas de reencontros. No último dia de aula, distribuímos uma folha com endereços — sim, endereços de verdade, com rua, número e CEP! — e juramos que iríamos nos rever. Resultado? Cada um seguiu seu caminho: uns passaram no vestibular na mesma cidade, outros trocaram de cidade, e teve até quem desistiu dos estudos. Ficamos, no fim, com uma lista de endereços amarelada e uma mala cheia de memórias adolescentes, e o tal reencontro nunca aconteceu.
Alguns anos depois, bastava encontrar um ex-colega que logo surgia a pergunta clássica: “Como vai o Fulano?”. Aí vinham as atualizações-surpresa: “Casou com aquela menina da outra turma!”. E a gente respondia: “Ah, sempre desconfiei de que ele gostava dela…”. Ou então: “A Beltrana já é mãe!”, “Não diga! Mas… quem é o pai?” Não sei, só sei que voltou para sua cidade, casou e já tem bebê. Era o Facebook analógico, com fofoca boca a boca e sem curtidas.
Na faculdade, a cena se repetiu. Fizemos muitos amigos, estudamos juntos, militamos juntos, vivemos muitas aventuras até que chegou a hora da despedida. Fizemos juras de amizade eterna e… a mesma taxa de sumiços. Só que agora tínhamos e-mail! A revolução digital permitia mandar mensagens coletivas com as novidades: “Fulano arrumou emprego!”, “Sicrana entrou no mestrado!”. E assim, com uns poucos sobreviventes da agenda de contatos, seguimos trocando abraços virtuais.
Hoje, eu continuo trabalhando, enquanto alguns amigos já estão aposentados e felizes da vida! Pelas redes sociais, acompanho os nascimentos de netos, relatos de viagens, bem como vejo as posições sectárias de alguns. Penso que é melhor ficar com as lembranças do passado do que reencontrar alguns colegas. Com os que nos identificamos, conseguimos manter o contato e realizar alguns reencontros. Confesso, às vezes penso duas vezes antes de perguntar: “Como vai o Fulano?”. Vai que a resposta vem com um tom fúnebre?
E me pego imaginando daqui a 20 anos. Espero que todos estejamos bem, mas é provável ouvir algo como: “Fulano vai bem… caminha meio curvadinho, arrasta os pés, mas a cabeça tá boa, lembra de tudo!”. Ou então: “Beltrana? Continua animada, acabou de voltar da Espanha depois de encarar o Caminho de Santiago!”.
A vida vai virando páginas e colecionando histórias. No fundo, quando chegarmos lá na frente, ninguém vai querer saber se fomos os melhores da classe, se casamos com alguém de capa de revista ou se acumulamos muito dinheiro. O que vai pesar mesmo é se conseguimos rir de nós mesmos, se mantemos boas amizades e se ainda cultivamos sonhos — mesmo que seja aprender a trabalhar com cerâmica aos 85 anos ou planejar um curso de meditação e yoga na Índia.
E se você já passou dos 50 (ou está chegando lá), veja o que as pessoas dizem às enfermeiras nos hospitais quando estão prestes a fazer a passagem: eu devia ter me preocupado menos com o que os outros pensavam de mim; ter trabalhado menos e passado mais tempo com quem eu amo e devia ter expressado o que eu sentia.
Porque, no fim, ter amigos com quem rir, reclamar do joelho, trocar dicas de médico e dividir histórias é como cuidar de uma plantinha: se não regar toda semana, murcha. Então, vamos regar nossas amizades, cultivar encontros, rir das rugas e das gafes, e viver como quem sempre tem uma boa história para contar. Que a pergunta “como vai Fulano?” não seja apenas curiosidade, mas o desejo de que a resposta venha assim: “Está ótimo! Está no grupo do coral, aprendendo a dançar salsa e fazendo caminhadas.” E que, quando o Fulano formos nós, que a resposta seja de que estamos bem, cheios de vida e de amigos. Feliz de quem puder deixar mais sorrisos do que silêncios no coração de quem caminhou conosco.
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Foto da Capa: Kampus Production / Pexels

