1. O pudor da sociedade torna os assuntos do corpo interditos – e aqui não falo da nossa atual sociedade, em que alguns dos tabus são menos rigorosos, falo da sociedade ocidental como um todo. O corpo e suas instâncias (e reentrâncias) são o objeto do obsceno por excelência. Os dejetos do corpo, suas “partes inapropriadas”, seus processos desagradáveis sempre foram tidos como um não assunto, no máximo a ser compartilhado em uma consulta médica.
2. Não à toa, situam-se ou referem-se a esse campo a maioria dos palavrões mais pesados de nosso idioma. As dezenas de sinônimos para os órgãos genitais masculinos e femininos, as descrições sem eufemismos da matéria fecal, as nuances do aparelho excretor, as descrições agressivas e abastardadas da maioria dos atos sexuais. O sexo como fisiologia, o sexo como ato libidinoso, os processos biológicos de nosso aparelho digestivo. São temas interditos, as palavras que os definem, não por acaso, são tratadas como “nomes feios”.
3. A literatura e as artes em geral são testemunhos persistentes da passagem de gerações anteriores por este planeta que dividimos. Daí o entendimento (curiosamente, hegemônico no campo conservador) de que o contato com seus exemplares mais bem acabados nos permite realizar um diálogo intergeracional com antepassados remotos. Não é um entendimento equivocado, apenas incompleto. Quanto mais remoto for o tempo que nos legou o texto, mais distante estamos do contexto, e por isso nossa apreensão da arte antiga precisa inferir a mentalidade que a compôs com base em indícios, elementos, registros históricos.
4. O fato de que mesmo assim somos tocados por uma arte composta séculos antes nos dá a ideia de que há em algum ponto um elemento que perdura e é compreendido de modo “universal”. A ideia de universalidade é, como toda ideia parida por humanos, construída mais do que “revelada”, mas ampara-se em um ponto inegável, o mesmo que dá origem ao campo intelectual da “estética”: algo ali nos provoca uma sensação (αἴσθησις, ou aesthesis), mesmo quando nos fala do outro lado de um abismo de séculos.
5. A estética acabou sendo dirigida, entre outras coisas, pela hegemonia do pensamento conservador que citei antes, para um estudo do que há de mais elevado na arte. Mas, e principalmente nos últimos dois séculos, ela também lida com o grotesco, o animalesco em nós, uma vez que seu campo de estudo não é o “belo”, mas a “sensação”, ou seja, mais como reagimos a algo e menos sobre a natureza desse algo.
6. Porque essa é uma questão interessante. Por mais que busquemos o sublime nas nossas interações com a estética, a arte, o pensamento (isso, claro, quando essas coisas ainda eram levadas em conta em um tempo menos anti-intelectual do que agora, com a ascensão da extrema-direita que confunde “pensar por si mesmo” com “orgulho da própria ignorância”), talvez as sensações mais imediatas que compartilhamos com outras figuras espalhadas pelo tempo sejam aquelas do campo do obsceno – o obsceno, aliás, que Byung-Chul Han vê como a verdadeira força hegemônica do mundo contemporâneo em que a dessacralização da vida leva a um direcionamento do obsceno como tentativa extrema, até mesmo pornográfica, de obter uma reação “autêntica”.
7. Pensando no quanto hoje parecemos perder contato com a mentalidade de outras épocas, meio que direciono este texto pelo mesmo caminho. Mais de uma vez, caminhando pelo Centro e acometido pela iminência de uma espetacular diarreia, entre outras considerações mais imediatas, pensei nisso: o que faria um passante dos anos 1900 naquele mesmo centro de Porto Alegre acometido por esse tipo de urgência, sem shoppings à vista e em um tempo mais sério e cioso das conveniências. Seria de bom tom simplesmente chegar a uma padaria ou farmácia e pedir para usar o “reservado”? Provavelmente sim, melhor do que se sujar na rua. E essa angústia é algo que qualquer um de nós pode compreender sem necessidade de muitas extrapolações contextuais.
8. O famigerado Rei João, um dos déspotas ingleses mais universalmente desprezados da História (não à toa ele é frequentemente o vilão nos contos folclóricos e nas adaptações para a mídia moderna de Robin Hood), morreu esvaziando os intestinos – vítima de disenteria, uma doença que foi devastadora ao longo da história, tanto para a nobreza quanto para a plebe. Aí talvez estejamos exagerando um pouco. Mas eis aí uma das poucas experiências realmente universais que partilham as gentes do passado e do futuro. Os antigos nunca voaram de avião, não conheceram o cinema, a TV, as modernas tecnologias. Não viveram, numa sociedade da imagem, portanto. Viviam numa sociedade narrativa, mesmo que a maioria não soubesse ler. Milhões nunca pescaram um peixe. Mais outra multidão, ontem e hoje, nunca plantou uma árvore. Muitos nunca viajaram numa embarcação sobre as águas. Mas ao menos uma vez na vida, todos os que viveram já imploraram a seja lá em que acreditassem para que o sofrimento de uma barriga dolorida passasse.
9. E já que falei de dor, não precisamos nos concentrar apenas no escatológico. Embora cada pessoa responda à dor de modo diferente, a dor é um fenômeno constante desde a origem da vida. Todos já sentiram dores intestinais, já toparam o dedão, já cortaram a pele num acidente. Para acentuar nossas folclóricas divisões, todas as mulheres da espécie humana já sentiram cólicas e todos os homens já toparam com seus testículos em alguma coisa que os deixou contorcidos de dor (não interessa aqui a discussão que muitos gostam de puxar comparando os dois tipos de dor, analogia estúpida que às vezes inclui ainda as dores do parto). Não são experiências comparáveis, me serve apenas a certeza de que essa é uma dor conhecida amplamente nas divisões do sexo biológico.
10. Comecei este texto tentando encontrar mais exemplos, mas é estranho como esse tipo de resposta tão instantânea e animal parece ser a única que se presta a este devaneio maluco. Quanto mais complexa a sensação, mais o contexto nos leva a completar lacunas cada vez maiores. Se permitem a piada algo tosca, a espécie humana só chegou até aqui porque a maioria dos seus exemplares no passado comeram e se comeram, mas eis aí experiências em que o contexto histórico e cultural faz diferença. Mesmo com a era do capitalismo globalizado transformando toda experiência cultural em objeto de consumo, não temos como saber realmente o sabor de pratos de um milênio atrás. Há canais no YouTube dedicados à reconstituição de algumas receitas do tipo, e o número de adaptações que precisam ser realizadas é imenso, seja porque condimentos usados no passado não estão disponíveis hoje ou não são exatamente saudáveis, seja porque não há sequer registros precisos de como um prato era preparado.
11. E quanto ao sexo, bem, embora claramente só estejamos aqui porque a humanidade praticou a coisa, padrões societais de imposição de comportamento sempre condicionaram ou até mesmo interditaram a experiência, pelo menos para uma boa parcela da humanidade. O sexo reprodutivo não é o mesmo sexo em busca do prazer dos tempos contemporâneos, e nem todas as expressões de sexualidade tinham direito de ser exercidas sem uma boa dose de hipocrisia. Mulheres, homossexuais, fetichistas foram muitas vezes dominados, marginalizados ou invisibilizados. Assim, embora o sexo esteja entre as experiências que boa parte da humanidade já teve, ele nunca foi o mesmo dependendo de tempo e lugar.
Quem diria que aquilo que nos conectaria sem escalas com qualquer ser humano do passado e, talvez, do futuro, enquanto ainda houver perspectiva de um, seria nossa porção mais animal, curvada de dor, excretando coisas que ninguém gosta de mencionar?
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Foto da Capa: Reprodução / Trainspotting (1996)

