A gente tem mania de colocar tudo no mesmo saco. Jogar papel no chão, furar fila, não dar seta… e também pegar o que não é seu. Tudo vira “falta de educação”. Mas não é a mesma coisa! Tem uma enorme diferença entre ser mal-educado e ser desonesto. E, cá entre nós, tem também aquela zona cinzenta: o que é “legal”, mas não ético.
Lembrei de um laboratório em Porto Alegre que oferecia café e bolachinhas para os pacientes. Como alguns enchiam a bolsa de pacotes, o jeito foi colocar alguém para vigiar as bolachas. Sim, isso aconteceu. E é triste, porque a gente vive num país onde a desconfiança virou regra e a gente precisa vigiar até o biscoito.
Foi pensando nisso que comecei a observar a vida na Nova Zelândia. Claro que também existem infratores, mas aqui a confiança no outro parece estar no ar, como o cheiro de grama molhada.
No museu, pediram documento para dar desconto de estudante para Grace. O aplicativo não abria. A moça do balcão disse: “Se você tá me dizendo que tem, então eu acredito em você.” Pronto. Fim. Sem polígrafo, sem carimbo, sem três vias.
Chegamos a um camping às 22h. Portão aberto, nenhum ser humano à vista. Só uma urna e um aviso: “Coloque o dinheiro aqui ou pague pelo app.” Logo pensamos, deve ter alguma câmera escondida! Será que todos pagam? Placas ao longo das rodovias informam multa de 800 dólares para quem estacionar motor home onde não pode. E adivinha? A gente viu alguns estacionados onde não deviam. As regras são claras e o controle é mínimo, mas quem for pego burlando, paga caro.
Na última semana, visitamos Milford Sound, um fiorde na ilha sul, com penhascos íngremes e cachoeiras gigantes. As estradas na Nova Zelândia são cênicas e cheias de curiosidades. Numa estrada com muito fluxo de turistas, vimos uma cena pitoresca que quase parece cenário de filme: um rebanho de ovelhas atravessando a rodovia. Em vez de cavalos, os criadores utilizam cães e quadriciclos para manejar as ovelhas. Veja tudo isso em fotos e vídeos clicando aqui.
Toda aventura precisa de emoção, óbvio. Numa praia, fui manobrar a van e … atolei num areião. Logo apareceu um casal de idosos e ajudaram a empurrar, trouxeram galhos, mas não conseguimos sair do buraco. Agradecemos muito o carinho deles e dissemos que iríamos chamar o guincho. Depois que eles foram embora, resolvemos erguer a van com o macaco, cavar por debaixo das rodas, calçar bem e assim ficamos orgulhosos de conseguir sair sem ajuda do guincho. Minhas lembranças de infância no interior de Tupanciretã, onde muitas vezes ajudei meu pai a desatolar a camionete Rural Willys, foram o que nos salvou.
Quando acabou a erva-mate, eu já estava querendo antecipar a volta, mas por sorte encontrei uma brasileira que me indicou onde comprar em Queenstown. Tive que pagar R$ 85,00 por um quilo de erva, mas enfim, item de primeira necessidade não dá para economizar!
Entramos na última semana de viagem, já com saudades de casa. Na próxima semana, você lerá le grand finale desta aventura, com mais fotos e vídeos.
Estou escrevendo esta coluna numa área de convivência num camping em Christchurch. Não tem ninguém no ambiente, deixei o computador em cima da mesa e me afastei por uns 10 minutos para ir até a van. Sabia que ninguém iria roubar, mas fiz isso com um certo temor. Essa apreensão é cultural. Nós, brasileiros, trazemos no peito uma dose de desconfiança que pouco a pouco vira rotina. E isso custa caro. Custa segurança, custa saúde mental, custa ter que contratar alguém só pra vigiar bolachinha. Entendi que regras claras e consequências bem aplicadas funcionam melhor que fiscais por toda parte.
Espero que um dia possamos viver num Brasil melhor, onde o respeito seja maior do que o medo. Onde dê pra deixar o computador na mesa e ir tomar um chimarrão em paz. Onde confiar no outro seja regra, não exceção. E que a gente aprenda, de uma vez, que levar vantagem em tudo não é esperteza. É empobrecer a alma e o país.
Nota: Assista AQUI ao vídeo relativo a esta parte da viagem.
Todos os textos de Luis Felipe Nascimento estão AQUI.
Foto da Capa: Freepik

