Em tempos tensos e cheios de ameaças como o que estamos vivendo, a solidão bate inexoravelmente em alguns momentos, acompanhada de uma quase desesperança. A independência que conquistamos com muito esforço ao longo da nossa caminhada não é o que basta. Mais do que nunca, é necessário dividir acolhimento e cuidado. Não há como não pensar na fragilidade da condição humana em meio ao destempero generalizado que nos ronda. Convivência, respeito, troca, diálogo, boas conversas, abraço, um ombro amigo são fundamentais para a nossa saúde mental e física.
Fico especialmente à flor da pele com a violência de toda ordem que invade o nosso cotidiano. O feminicídio segue em alta no Brasil, o machismo não dá trégua, assim como o abuso sexual de crianças. É inaceitável a afirmação “pintou um clima” de um presidente em uma “motociata” ao encontrar jovens venezuelanas menores de idade. Temos ainda os ataques inesperados da polícia que geram mortes que não se justificam e as injustiças que deixam rastros vorazes, como invasões e mortes que acontecem em escolas. O aprendizado interrompido pelo medo e pela violência. Quem se beneficia com tais afrontas, muitas acompanhadas de um silêncio assustador?
Os ares estão carregados de intolerância, contaminados por um ódio autorizado que se disseminou feito praga.
Nunca imaginei ser possível alguém acreditar mais no porte de armas do que na educação e na arte. Nunca imaginei ter que ouvir ameaças externas desrespeitosas tumultuando a nossa soberania, com o apoio de políticos, pagos com o nosso dinheiro, que não trabalham e seguem por aí dizendo o que querem sem freios. Atitudes que embrulham o estômago. O horizonte que se desenha é turvo e sombrio.
Conquistas como as que se referem às questões de raça e gênero seguem ameaçadas. A saudável mudança dos papéis tradicionais com as novas formações familiares, que dão mais transparência e liberdade às relações humanas, ainda provoca reações discriminatórias. É difícil constatar que muitos preferem viver na hipocrisia do bordão “tradição, família e propriedade”, enaltecido pela ditadura militar, que ganhou fôlego em um governo que devastou o país. Um governo que jamais olhou para a riqueza da nossa gente, para a nossa cultura e a nossa diversidade. A devastação teve seu ápice no dia 8 de janeiro de 2023, quando invadiram o Palácio do Planalto em Brasília, depredando os espaços e destruindo obras de arte, um patrimônio que é de todos nós.
Há que se reagir às vulnerabilidades que nos fragilizam e apostar na resistência para fortalecer a esperança. Sempre de mãos dadas com a educação e com a arte que nos dão identidade. Com ética. Com argumentos. Sem barganhas. Sem invasões. Sem toma lá, dá cá. Com justiça. Com dignidade. É duro reconhecer que a precariedade do cotidiano é grande. E somo a isso a minha busca por acessibilidade, inclusão e sustentabilidade, mesmo sentindo a ausência de um olhar acolhedor.
Sempre é bom lembrar que, para uma vida plena, não basta estar. Estar é ser apenas mais um. Não basta ter. Ter é apenas acumular. Para a vida plena, é preciso ser, estar, conviver, participar, compartilhar. É preciso respeito, saúde, segurança, trabalho, pão na mesa, transparência, solidariedade e ação. Foi o que aprendi, em um momento difícil e delicado da minha vida, com João Celestioso, personagem do escritor moçambicano Mia Couto no livro “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra” (Cia das Letras), ao regressar do outro lado da montanha – “Eis o que aprendi / nesses vales onde se afundam os poentes: / afinal, tudo são luzes, / e a gente se acende é nos outros. / A vida é um fogo, / nós somos suas breves incandescências – A gente se acende é nos outros! O eu, sem o tu, não se vê!”.
“A gente se acende é nos outros! O eu, sem o tu, não se vê!”
Todos os textos de Lelei Teixeira estão AQUI.
Foto da Capa: Tânia Rêgo / Agência Brasil

