Eu ia escrever aqui que, além da revalorização da cultura nacional e de um forte empurrão para cima na indústria cinematográfica, o filme Ainda Estou Aqui pode servir de vacina contra os efeitos colaterais que a posse de Donald Trump, os discursos dele e as ações que já executou e vai continuar executando, vão provocar nas cabeças nacionais que, cobertas pelo famoso boné MAGA, aplaudem, como macaquinhos de imitação, tudo o que promete cometer o chefão do Norte.
Mas aí me lembrei de que, para o filme amenizar os males provocados pelos decretos homofóbicos, xenófobos, isolacionistas, imperialistas nas cabeças dos trumpistas e bolsotrumpistas nacionais cobertas pelo boné MAGA, é preciso que eles vão, ou sejam levados, ao cinema. Difícil, né? Eu já vi até defesas da decisão trompista de mandar encarcerar mulheres trans em presídios masculinos…
Quando buscava um tema para esta coluna, lembrei, logo, da cena que ilustra a maioria das matérias sobre o filme. Aquela da Eunice Paiva (Fernanda Torres) posando para uma foto com as filhas e o filho.
A reportagem era sobre o desaparecimento do deputado Rubens Paiva, marido de Eunice. O fotógrafo pede que a família não sorria, porque o editor não queria nada muito alegre. Eunice reage e manda todos sorrirem…
Fiquei imaginando que, diante de uma atitude corajosa como a da então mulher de um deputado tirado de casa por agentes de uma ditadura, nossos parlamentares, esses saudosos daqueles tempos de sombra, ou sonhando com a volta deles, pudessem refletir melhor e usar a representatividade que o povo lhes deu nas urnas pra defender a plena liberdade.
Difícil, não? Eles estão mais para as fakes news e a desinformação das redes sociais do que para a verdade da atuação de Fernanda Torres…
Já estava quase desistindo de tratar do filme que consagra mundialmente o cinema nacional. Mas lembrei que Fernanda Torres, Selton Mello, todo o elenco de Ainda Estou Aqui, junto com Walter Salles, a participação mais que especial da Fernanda Montenegro e Marcelo Rubens Paiva, autor do livro que dá nome ao filme, podem fazer a cabeça de, pelo menos, duas gerações de brasileiras e brasileiros que só conhecem ditadura de ouvir falar.
O filme pode servir de antídoto ao veneno que alguns destilam nas redes sociais em discursos que já seriam considerados atrasados lá pela primeira metade do século 20.
Nada que se diga de bom sobre Ainda Estou Aqui pode ser considerado exagero. Afinal, pela primeira vez na história, um filme falado em português disputa três categorias do Oscar e pode funcionar como vacina preventiva contra recaídas antidemocráticas.
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Foto da Capa: Casa Branca / Divulgação