Durante a infância, eu me orgulhava da suposta ascendência europeia que sempre me atribuíram. Achava bonito ouvir meu avô pronunciar algumas palavras na língua que ele chamava de alemão, embora me intrigasse perceber que certos termos não coincidiam, nem no som nem na grafia, com aqueles que eu aprendia no projeto de língua alemã da escola. Ninguém na família sabia explicar essa diferença, assim como ninguém conseguia afirmar se tinha sido o bisavô ou o trisavô quem atravessou o oceano para chegar ao Brasil.
Essa dúvida só foi esclarecida muitos anos depois, quando, já mergulhada nas pesquisas para escrever o romance Antes de Fechar os Olhos, descobri que os imigrantes procedentes da Alemanha se comunicavam por dialetos e não pela língua alemã oficial. Ao mesmo tempo, desmoronou o orgulho da suposta “ascendência europeia” quando descobri que meus antepassados talvez não fossem as figuras honradas como o descreviam, já que também vieram para o Brasil pessoas de má índole e fugitivos da justiça. Com isso, a herança que eu idealizava se revelou outra coisa: menos nobre, mais humana.
Não há dúvidas de que, assim como outros grupos de imigrantes, os alemães contribuíram para o desenvolvimento de várias regiões brasileiras. O que quase nunca se menciona é que esse avanço também se construiu sobre a exploração não só dos próprios imigrantes, que chegaram ao país sob promessas que não se cumpriram, mas dos povos nativos e escravizados, que pagaram o preço mais alto desse chamado “progresso”. As colônias, frequentemente apresentadas como exemplos de trabalho árduo e perseverança, também nasceram dentro desse contexto desigual. Nos relatos oficiais, aparecem como comunidades prósperas, disciplinadas e culturalmente ricas. No cotidiano, porém, carregavam rigidez religiosa, conflitos internos e uma estrutura social que deixava pouco espaço para desvios ou fragilidades.
É justamente essa contradição entre o progresso e o conservadorismo que marca o cenário de A Memória das Rosas, mais recente obra de Henrique Schneider. Ambientado no início do século passado, em uma pequena comunidade de colonização alemã, o romance acompanha um amor proibido entre duas mulheres, pressionado por um ambiente rígido, guiado pela tradição e pela vigilância constante.
Nas proximidades de Porto Alegre, essa comunidade se orgulha do que considera sinais de modernidade: o comércio variado, as vitrines coloridas, o Café da Cidade, a nova fábrica de sapatos e a escola destinada às moças, vista como símbolo de cultura e civilização.
É para essa escola que Catarina chega. Depois de lecionar em colégios da capital, é recebida como a professora ideal para preparar as jovens para o futuro. No entanto, a modernidade que a comunidade gosta de celebrar não alcança suas estruturas internas. A presença de Catarina, uma mulher independente, culta e solteira, logo incomoda alguns dos homens que ditam as regras do lugar.
O romance de Schneider aborda não apenas a cultura alemã preservada pelos habitantes daquela cidade, mas também o machismo, o preconceito e o orgulho da descendência de um país onde muitos deles nunca pisaram. O fato de ser brasileiro e se considerar estrangeiro revela uma identidade construída mais pela idealização do que pela verdade. Assim como descobri que a língua da minha família não era o alemão oficial, os personagens do romance também vivem presos a uma ideia distorcida de origem. Esse desencontro entre passado e realidade alimenta o conservadorismo local e ajuda a explicar por que qualquer gesto fora da norma se transforma em ameaça. No fim, tanto minha história familiar quanto a narrativa de Schneider mostram que heranças mal compreendidas podem sustentar preconceitos e impedir que o verdadeiro progresso chegue a muitas dessas comunidades.
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Foto da Capa: autor desconhecido

