Na semana em que o Rio de Janeiro sediou a Rio 92, a primeira grande conferência global sobre o clima, a cidade vivia um outono de cartão-postal, com céu azul e temperaturas amenas. Lembro-me de estar no ônibus, a caminho do trabalho, e ver um helicóptero cruzando o ar cristalino, imaginando se seria algum chefe de estado a caminho do Riocentro. O Brasil, com razão, orgulhou-se do sucesso daquele evento, que recebeu os principais líderes mundiais, de George Bush a Fidel Castro, com uma organização impecável e resultados promissores. Os olhos do mundo se voltaram para nós, e nós correspondemos. As perspectivas para uma união global em torno da crise climática pareciam tão luminosas quanto aquela manhã de outono.
Trinta e três anos depois, a COP 30, sobre a qual recaíam tantas expectativas, parece nascer sob o signo do fracasso. Não bastassem os problemas de hospedagem, o calor infernal — culpa de um ar-condicionado deficiente, não do clima —, a falta de água nos banheiros e os preços exorbitantes da alimentação, a cúpula de líderes atraiu menos de 40 representantes. As ausências notáveis dos chefes de estado dos Estados Unidos, China e Rússia, três dos maiores poluidores do planeta, sinalizaram um desinteresse preocupante. Até a noite de quinta-feira, 13 de novembro, nenhum compromisso significativo havia sido firmado.
Nas próximas semanas, vou apresentar uma avaliação completa dos resultados, até agora decepcionantes, da COP 30. Hoje, no entanto, quero me ater a algumas das contradições e incoerências que saltam aos olhos quando examinamos os bastidores do evento.
A estrada “sustentável” (1)
Belém foi escolhida como sede por sua localização estratégica, no coração da Floresta Amazônica. Ironicamente, porém, para receber a conferência, a cidade construiu a Avenida da Liberdade (veja aqui), uma rodovia de quatro pistas que causou a remoção de milhares de hectares de mata nativa e isolou duas áreas de floresta protegida. Enquanto pilhas de toras se acumulavam à beira da estrada e animais silvestres mortos eram recolhidos diariamente, o governo do Pará defendia a obra como essencial para a mobilidade urbana, afirmando que havia licitado antes da escolha de Belém como sede da COP 301.
A defesa oficial classifica a rodovia como “sustentável”, equipada com ciclovias, painéis solares e, o que seria mais impactante, 36 túneis para a passagem de animais (em 13 quilômetros!) — sem, no entanto, a presença de cercas ou passagens aéreas para espécies arborícolas. A população local, composta em grande parte por catadores de açaí, não recebeu qualquer indenização, sob a justificativa de que as comunidades “estão sendo beneficiadas com infraestrutura”. Essa estrada é um símbolo gritante do descompasso entre o discurso e a prática. E não é o único.
A cidade maquiada
Ao final da conferência, talvez a única beneficiada pela COP 30 seja a própria Belém. Deixando de lado as estradas que destroem florestas, a cidade recebeu melhorias na infraestrutura, reformas em prédios históricos e uma visibilidade turística inegável. Contudo, um olhar mais atento revela uma realidade menos reluzente, especialmente no que diz respeito ao saneamento básico.
Há vinte anos, em uma visita a Belém, fiquei chocado ao ver esgoto correndo a céu aberto pelas sarjetas do centro da cidade. A situação pouco mudou. Até recentemente, a cobertura de esgoto era de apenas 19,9%. Para a COP, prometeu-se uma melhoria, que se concretizou em um aumento de meros 4%, concentrados nas áreas próximas ao local da conferência. Belém, além de uma das mais baixas coberturas de água e esgoto, continua a ostentar um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) entre as capitais brasileiras. A cidade melhorou, sem dúvida. Mas a pergunta que fica é: precisava estar tão ruim para melhorar tão pouco?
A hipocrisia do petróleo
Em plena COP, o senador Alcolumbre, um dos maiores defensores da exploração de petróleo na Foz do Amazonas, encontrou o presidente da Guiana e não se conteve. “Meu vizinho do petróleo!”, gritou, empolgado, para quem quisesse ouvir. A Guiana, com suas vastas reservas, representa a esperança de que a riqueza do petróleo se estenda ao Amapá (veja aqui). Para não deixar dúvidas sobre suas prioridades, o governo brasileiro, que almeja ser um campeão da sustentabilidade, aprovou a exploração na Foz às vésperas da conferência.
O Brasil, no entanto, não está sozinho nessa hipocrisia. A Noruega, sempre tão disposta a financiar fundos de preservação ambiental, construiu sua própria riqueza sobre a exploração de petróleo e gás no Mar do Norte e continua a fazê-lo. A União Europeia, exemplo na busca de energias renováveis, continua a ser uma grande exportadora de derivados de petróleo, principalmente a partir de sua maior refinaria, localizada em Rotterdam. A contradição entre o discurso verde e a dependência (e o lucro) em combustíveis fósseis está por todo o mundo.
Nem tudo é ruim
Apesar de tudo, mesmo que a COP 30 se revele um fracasso em termos de participação e metas globais, seria um erro descartar seu valor por completo. Uma reunião desta magnitude, ao congregar pessoas do mundo todo em torno da crise climática, inevitavelmente semeia algo positivo. É nos corredores, longe dos palanques oficiais, que outra COP acontece: nas trocas de experiências entre indígenas de lugares tão distintos quanto o Brasil e a Sibéria; nas conversas entre esses mesmos povos e os cientistas; no diálogo entre pesquisadores e administradores públicos — prefeitos e governadores que, ao contrário dos grandes líderes, estão mais próximos do sofrimento de suas comunidades.
Dessas conexões, que unem também ambientalistas, jornalistas, empresários e funcionários de organizações governamentais, certamente surgirão ideias, soluções e caminhos para enfrentar esta grave crise. Em um mês em que furacões, tufões e tornados nos lembram brutalmente que o tempo está se esgotando, só nos resta torcer. Para nós, que não estamos em Belém, a esperança é que, apesar de tudo, a COP 30 represente ao menos um avanço na busca por soluções para a crise que ameaça a todos nós.
Nota:
1 Quando escrevi o primeiro esboço desta coluna, pouco se falava sobre essa estrada. Agora, porém, o caso foi “descoberto” pelos negacionistas climáticos, que estão explorando ao máximo a falta de sensibilidade dos governantes do Pará. A repercussão foi tanta que até o Donal Trump a citou em sua rede social, a TRUH Social ("They ripped the hell out of the Rainforest of Brazil to build a four-lane highway for Environmentalists to travel. It’s become a big scandal!).
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Foto da Capa: Tânia Rêgo / Agência Brasil

