“Na guerra, a primeira vítima é a verdade.” Essa frase é atribuída ao dramaturgo Ésquilo, considerado o pai da tragédia grega, tendo vivido entre os anos de 525 e 456 a.C.
O aforismo continua valendo e pode ser bem empregado nesse tempo que estamos vivendo. Além das batalhas e matanças, domina a guerra de versões, na política em especial, tanto interna quanto externa. Dispara-se por meio de mensagens, drones, notícias, mísseis literais e metafóricos. O poder destrutivo é real. Boa parte da mídia parece dedicar-se mais à trajetória do rastro que os petardos desenham no firmamento, do que ao estrago que provoca na terra arrasada.
O fato é que criar narrativas para obter vantagens e justificativas certamente remonta a bem mais do que a passagem de Ésquilo pelas batalhas de Maratona e de outras das Guerras Persas.
Nesse clima, é até difícil acompanhar os noticiários, sob pena de sermos esmagados pela engrenagem da manipulação de interesses. O jogo é mais baixo ainda por tratar-se de ano de eleições. Salve-se quem puder.
Mas nem tudo se subverte e se maquia apenas por intenções perversas e ganâncias vis. Há pecados menores que até para um clérigo de bom apetite seriam compreensíveis.
Convido o leitor a desanuviar um pouco e darmos um pulo na Venezuela. Não na atual, mas na do século XVII. Estamos na Quaresma e a liturgia católica, que percorria a América Latina buscando salvar almas condenadas, impunha seus dogmas. Entre estes, a proibição de consumo de qualquer tipo de carne terrestre nos quarenta dias que precedem a Páscoa. Foi nesse cenário que um Padre resolveu escrever uma carta ao Vaticano.
Pode parecer um preconceito, mas é voz corrente que muitos componentes do clero são também apreciadores da boa mesa. Parece ser a situação em tela. O religioso alegou ter encontrado um animal que “vivia dentro d’água e tinha os pés palmados” e que, quando cozido, “lembrava o sabor de peixe”. Questionava aos “reverendíssimos”, portanto, se poderia ser consumido durante o período de abstinência. A resposta chegou, também por escrito: sim, poderia, desde que o animal fosse, formalmente, considerado um peixe. E assim se deu. Diga-se, em reforço, que a taxonomia religiosa da época parecia basear sua classificação mais no habitat do que na genética.
Foi assim que o “pisillo de chigüire” tornou-se um prato tradicional venezuelano e colombiano. O cozido é refogado na companhia de alho, cebola, tomate, pimentão e urucum, que temperam a carne seca e desfiada da “capivara” (o chigüire). As membranas entre os dedos do roedor (os pés palmados) e sua notória habilidade no mergulho permitiram que o animal fosse considerado “peixe”, atendendo ao pragmatismo e à fome do padre matreiro. Tornou-se um preparado especial para a Semana Santa, tenro e de sabor singular.
Há outros casos semelhantes, além da capivara. O peixe-boi na Amazônia, o lagarto (Teiu) em algumas regiões do interior do Brasil e o castor na América do Norte também foram convenientemente rotulados como peixes, facilitando o cardápio de colonos e missionários durante os dias de jejum.
Mas, voltando a Ésquilo, reza a lenda que a morte do dramaturgo, mais do que tragédia, poderia ser classificada como uma surreal comédia. Ele teria se mudado para os campos depois da previsão de um oráculo de que sua morte viria da queda de um objeto. Temia os tetos da cidade, sem se dar conta da vastidão dos céus. Uma ave de rapina, um abutre-barbudo — também conhecido por “quebra-ossos” – teria confundido o crânio calvo do dramaturgo com uma rocha. Esse tipo de ave é conhecido por jogar ossos em cima de rochas para despedaçá-los e extrair deles o tutano. No caso em questão, um casco de tartaruga arremessado do alto.
As tartarugas pertencem ao grupo familiar dos quelônios. Além delas, que são geralmente marinhas e possuem nadadeiras, pertencem à família: os cágados, de água doce, e os jabutis, exclusivamente terrestres. Esses últimos jamais poderiam ser chamados de peixe. Nem por ordem do Papa.
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Foto da Capa: Gravura com IA pelo Autor.

