No poema Terra Devastada, Eliot imagina o fim do mundo como um estampido, e não um trovão. As expressões variam conforme o tradutor, mas o sentido é claro: tudo pode acabar por causa de uma sutileza.
O poeta é tão batuta que o sentido se abre e alcança outras terras, incluindo a corrosão provocada pela convivência nos relacionamentos cotidianos. Aqui é preciso narrar, evitando o esvaziamento (de sentido) por anódinas teorias.
Narremos. Você acorda em cima da hora para escalar o dia. Entre as providências necessárias, separar o cabo do carregador para que a porção on-line cada vez mais expandida no trabalho possa garantir a sua presença, ainda no meio da manhã.
Mas onde está o cabo do carregador?
Só ela pode responder, mas já não se encontra no recinto. Devidamente localizada, não pode dizer que não viu. No fundo sabe que o cabo estava no lugar correto em que um virginiano o depôs. E escorpiões não mentem.
Olha, amor, pode estar na cesta de roupa suja.
Cesta de roupa suja?
Sim, no bolso da saia marrom ou dentro da manga da blusa amarela.
Não, não está e começa a busca nos lugares mais improváveis: caído no final (ou começo) do corredor, ao lado da patente no lavabo ou entre as garrafas de água, na geladeira. Já é surreal, impossível, e aponta para outros dramas similares, desgastantes.
As tampas das tais garrafas d´água, por exemplo. Sempre desaparecem, jamais são encontradas. Há um gargalo que as suga por vácuo? E as canetas, tão essenciais na vida de um escritor-raiz?
Parênteses. Noite dessas, sonhei que estava em um cemitério. Achei sinistro, porque todas as lápides eram curtas e finas. Logo entendi que era um cemitério de canetas. Bics estavam engavetadas. Canetas chiques (inconformadas com a rima) jaziam em mausoléus.
Acordei sem vivo lápis para anotar o sonho. Mas o episódio, por mais que não tenha o valor de uma Terra Devastada, busca também a sua metáfora como tudo o que se escreve nesta vida. Ou se canta, evocando aqui a faxineira fascinante de Nei Lisboa, símbolo-mor do que estou tentando alcançar.
Estou tentando alçar o episódio à metáfora de um verdadeiro amor. Este precisa transcender o comezinho de uma convivência cotidiana, especialmente nas pequenas coisas ou mesmo em todas elas. Um verdadeiro amor dispensa-as.
Um verdadeiro amor é desprovido de objetos alheios a ele, por mais úteis que possam ser. Franciscano, apego desapegado, vive de si, estando, sendo. O verdadeiro amor é inútil e dispensa desempenho. Une almas sem coisa nenhuma, bastando que estejam reunidas nesta viagem em que só carregam seus corpos. Obviamente, nus.
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