Para quem não está familiarizado, COP significa Conferência das Partes, eventos organizados pela ONU, sendo a COP sobre Mudança Climática (UNCCC) a mais famosa delas. Depois de vários cientistas alertarem sobre os riscos do impacto da ação do homem sobre o Planeta, em 1972 a ONU realizou em Estocolmo a primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano e estabeleceu uma agenda ambiental. Se passaram 30 anos e quase nada mudou, então veio a segunda conferência no Rio de Janeiro – a Rio 92.
A Rio 92 (Eco 92) consolidou o conceito de Desenvolvimento Sustentável e elaborou convenções sobre Mudança Climática, Diversidade Biológica e Combate à Desertificação. Foi assinada a Agenda 21 e documentos importantes como a Carta da Terra e a Declaração de Princípios sobre Florestas.
Para não deixar mais 30 anos e quase nada acontecer, foram estabelecidos eventos anuais, sendo as mais “famosas” a COP 3 (1997), que estabeleceu o Protocolo de Quioto, e, em 2019, a COP 21, que resultou no Acordo de Paris, que foi assinado por cerca de 150 chefes de Estado e teve 195 países signatários. Os dois maiores poluidores do mundo, que representam 40% das emissões globais, China e EUA, assinaram e se comprometeram a seguir o Acordo de Paris. Lá estavam Barack Obama e Xi Jinping. A Rússia, representada pelo primeiro-ministro Dmitri Medvedev, também assinou.
Como podemos ver, ter a presença e a assinatura das principais lideranças globais não é garantia de que os acordos serão cumpridos. Além disso, um país pode sair e entrar no Acordo de Paris quantas vezes desejar, como foi o caso dos EUA, que saíram no governo Trump 1, voltaram no governo Biden e saíram novamente no Trump 2.
Para serem válidos, os acordos nas COPs, que se traduzem em mais de uma centena de textos, nos quais são discutidos desde os verbos de cada frase, só serão aprovados se houver consenso. Se você já participou de uma reunião de condomínio, sabe que o consenso é quase impossível de se obter, dirá entre 200 países.
Os negacionistas sempre foram muito ativos em todas as COPs; na de Belém não seria diferente. Trump não compareceu, mas articula com os seus aliados para boicotar as COPs. Não faltam fatos para criticar, desde o preço da coxinha de galinha à infraestrutura, o ataque dos manifestantes, o fato de o Brasil anunciar a exploração de petróleo na margem equatorial, a ausência dos principais líderes mundiais, etc. etc. É óbvio que existem muitas contradições da ONU, do governo brasileiro, do governo local e da própria sociedade. Estes são os argumentos para mostrar o fracasso, o fiasco ou como queiram chamar da COP de Belém. O que os negacionistas não dizem é que fatos semelhantes ocorreram nas COPs anteriores. Não houve manifestações de protestos nas últimas COPs porque ocorreram em países onde as polícias não permitiam.
A importância das COPs não está só na presença dos principais líderes mundiais e em chegar ao consenso para assinar acordos. Exemplo disso é o Acordo de Paris, assinado e não cumprido. Eles não são cumpridos por razões econômicas, mas as consequências são enormes prejuízos econômicos, inclusive para as empresas. Dá para entender? As COPs reúnem milhares de cientistas, jornalistas, ativistas e colocam por várias semanas o tema das mudanças climáticas nos noticiários e nas telas de bilhões de pessoas. Seja negacionista ou não, vai ouvir falar da COP. Este tema é debatido nas escolas, nas igrejas e nas conversas de bar. Não fossem as COPs, talvez esquecêssemos do problema. Isso é suficiente? Certamente que não.
O fracasso ou sucesso da COP 30 dependerá do olhar de quem comentar. Mais importante do que as narrativas é o fato de que, desde 1972, os cientistas vêm alertando sobre o problema e pouca coisa foi feita. O Planeta não se importa com as narrativas, ele está nos mostrando a todo o momento que estão se intensificando os eventos climáticos extremos. Não admitir isso é de uma cegueira extrema.
Portanto, penso que não vale a pena gastar nosso tempo ouvindo as críticas e elogios a esta ou qualquer outra COP; o que nos importa é o que será feito. Os poderosos têm um plano: colonizar Marte e nos deixar aqui no caos que eles criaram. E qual é o nosso plano? Adiar e aceitar acordos não cumpridos? Nas próximas eleições, eleger candidatos que não se comprometem com um projeto de combate às mudanças climáticas? Precisamos sim de uma transição energética, mas que nos mostrem como isso será feito e quais os seus impactos.
A nossa vida, especialmente a dos mais vulneráveis, será cada vez mais impactada por ondas de calor, por tornados, inundações, novas pandemias e ainda não temos o derretimento do Ártico, que é uma bomba-relógio cujos estilhaços não podemos nem imaginar. Assim como nas guerras, quando as populações se unem e priorizam o coletivo para combater o inimigo, a nossa chance de amenizar o problema é realizar um “esforço de guerra” para combater as mudanças climáticas. Do contrário, todos teremos prejuízos financeiros e a nossa já sofrida qualidade de vida, ainda mais comprometida. Isso não é uma visão pessimista ou apocalíptica, é uma análise de risco. Por que isso não entra na cabeça dos governantes e líderes empresariais? Não seria hora de mostrar a nossa força?
Referências:
- Podcast O Assunto – Episódio “A economia da floresta em pé”.
- Negacionismo climático está a serviço de interesse econômico | Poder em Pauta com Ricardo Galvão.
Todos os textos de Luis Felipe Nascimento estão AQUI.
Foto da Capa: Tânia Rêgo / Agência Brasil

