Ao receber o convite para escrever na coluna Sler, me senti muito lisonjeada. Primeiramente, por ser um artigo que celebra o Julho das Pretas, mês que fortalece a luta das mulheres negras e combate o machismo e o sexismo. Uma data tão significativa merece um texto à altura. Nesse momento, me veio a pergunta: Será que sou capaz? Será que tenho conteúdo para tanto?
Fui buscar na memória alguns momentos que se conectam com a minha história, para que eu pudesse expressar, neste artigo, como me enxergo enquanto mulher negra — e o quanto isso pode contribuir ou se conectar a outras histórias.
Primeiro, lembrei de Dona Maria Iracema, minha mãe e meu maior exemplo. Ela representa a força e a resiliência da mulher negra. Tirada de casa na infância e levada por uma família rica para cuidar de outra criança, em troca de moradia e comida, permaneceu assim até a adolescência. Sofreu abusos e maus-tratos. Depois disso, passou por muitas dificuldades para criar duas filhas sozinha, trabalhando fora, e precisando deixá-las, muitas vezes sem companhia, para garantir o sustento de casa.
Apesar de todas as limitações, fui uma criança feliz, que brincou, sonhou — mas cresceu acreditando que aquela era a única realidade possível. Ainda assim, sempre ouvi uma frase dos meus pais: “Estude, minha filha. O conhecimento ninguém pode tirar de você.”
Cresci, fui mãe solo aos 17 anos, mas segui acreditando que minha realidade era aquela: repetir ciclos. E sempre me perguntando:
Será que dou conta?
Será que sou boa o suficiente?
O tempo foi passando, a vida seguiu seu fluxo. E, sim, fui dando conta.
Aos 33 anos, num ato de coragem, ingressei na faculdade. Naquele momento, os questionamentos voltaram:
Será que dou conta?
Será que sou boa o suficiente?
Esses pensamentos, que também podemos chamar de crenças limitantes, estavam sempre ali: na hora de fazer os trabalhos, nas provas, nas apresentações… E no momento de apresentar o TCC, então, nem se fala. Mas, sim, dei conta de tudo!
No dia da formatura, para minha surpresa, recebi a Láurea Acadêmica, reconhecimento como melhor aluna do curso de Gestão Comercial. Apesar de ouvir meu nome em alto e bom som e de ver minha foto no telão, questionei:
É para mim mesmo?
Será que mereço?
Desde então, muita coisa aconteceu. Fiz uma pós-graduação, mudei meu negócio, abri outro e sigo na caminhada para crescer como empreendedora. Porém, a dificuldade em assumir o meu protagonismo ainda está ali, sempre rondando.
Acredito que minha história não seja tão diferente de tantas outras mulheres negras. Mulheres que, por muitas vezes, não se sentem capazes, não conseguem celebrar vitórias, não se sentem merecedoras das próprias conquistas.
Creio que isso seja fruto de uma construção social e histórica capaz de nos invisibilizar de tal forma que até hoje temos dificuldade de reconhecer nossa grandeza, força, coragem e capacidade. Sabotadores internos — e externos também — se alimentaram dessa opressão por tanto tempo que, até hoje, insistem em nos fazer duvidar. Não digo isso para reforçar o discurso da mulher “guerreira”, porque essa fala nos coloca sempre num lugar de luta, defesa ou ataque. Hoje, o que mais queremos — e merecemos — é paz, respeito e igualdade de direitos.
Das muitas vozes que ecoam em minha cabeça, algumas ainda fazem duvidar de mim, e luto contra elas todos os dias. É um ato de coragem que me faz seguir em frente.
Hoje, reconheço o rompimento de ciclos significativos em minha trajetória, que inclui o fim do trabalho doméstico como forma de sustento — mesmo compreendendo que, com essa ocupação, minha mãe lutou, à sua maneira, para alimentar nossa família —, a conquista do primeiro diploma universitário da família e a atuação como empreendedora. Essas vitórias iniciaram um novo ciclo virtuoso, com o ingresso do meu filho em uma universidade pública — algo inimaginável por muito tempo. Isso se deve a um ato de coragem inspirado naquelas que vieram antes de mim.
Tem uma frase da filósofa, escritora e ativista negra Djamila Ribeiro que diz: “Eu podia ter o conhecimento e não ter a coragem. Quando você é mulher negra, é preciso ter os dois.”
Esse pensamento faz todo sentido na minha história, e é isso que desejo, neste mês tão simbólico: que sejamos corajosas o suficiente para nunca duvidarmos da nossa potência.
Um feliz Julho das Pretas!
Sobre o Julho das Pretas:
O Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, celebrado em 25 de julho, é um marco importante na luta e resistência das mulheres negras contra o racismo, sexismo e a desigualdade de classe. A data, reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU), teve origem em 1992, durante o 1º Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas em Santo Domingo, República Dominicana. No Brasil, é celebrado paralelamente o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Instituído no ano de 2014 (Lei nº 12.987), homenageia a líder quilombola que viveu no século 18 e, por duas décadas, esteve à frente do Quilombo do Quariterê, no Vale do Guaporé, em Mato Grosso. Pela relevância do tema, assim como novembro se tornou o Mês da Consciência Negra, o sétimo mês do ano é chamado de Julho das Pretas.
Leila Regina Silva é mulher negra, mãe do Richard e do Lucca, filha da Iracema. Graduada em Gestão Comercial, com MBA em Gestão Estratégica de Pessoas e Negócios, é fundadora e diretora da Help Digital, empresa dedicada a fortalecer a presença online de marcas usando ferramentas digitais. Integra a Odabá - Associação de Afroempreendedorismo. (Instagram: @helpdigitalmkt).
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