
Tive um problema de saúde bem incômodo, sobre o qual não entrarei em detalhes, por dois motivos: um, para ser ético comigo mesmo e não quebrar um auto segredo médico; outro, porque não interessa para a saúde da crônica.
Interessa que precisei fazer um exame complexo e desagradável, cujo resultado cairia, basicamente, em uma bifurcação nas possibilidades: a primeira era ser uma doença orgânica, e a outra que os sintomas se deviam, essencialmente, à ansiedade. E, como não me falta idade para a tal doença aventada nem motivos para estar ansioso, o resultado ficou aberto até o final do exame.
Foi quando o médico que realizou o procedimento, um sujeito bastante empático e atencioso, apareceu para me dar o resultado. Segundo ele, a sistematização do computador que utilizou para chegar à conclusão tratava-se de uma questão mais sensitiva, portanto, dificilmente ligada a causas orgânicas.
Acho que foi aí que a crônica realmente começou, a partir do momento de nosso desencontro filosófico. Ele lamentava o resultado, o que, para mim, estava difícil de entender. Mas, como de fato ele era atencioso e empático, explicou-me que, se a causa fosse orgânica, ele poderia tentar uma medicação segura e, caso não funcionasse, realizar uma cirurgia eficaz para a qual estava devidamente preparado. Afinal, além de conduzir o tal exame, ele também era cirurgião. Levando adiante seus argumentos, justificou que, sendo o resultado algo mais sensitivo, logo relacionado à ansiedade, caía numa zona cinzenta e difícil de tratar.
Não discordei, embora, ao contrário dele, eu estivesse muito satisfeito com o resultado. Trabalho junto aos outros e comigo mesmo nesta zona cinzenta, difícil de tratar e que se chama expressões de um corpo que se manifesta em nome de uma alma que ainda não encontrou o seu modo de expressar-se. Ajudá-la a fazer isso é mesmo difícil, arrastado por vezes, e a imagem cinzenta faz sentido quando é importante encontrar as cores de um símbolo que consiga abarcar o que nos faz sofrer. Ao final, não virá a cura cirúrgica ou medicamentosa, mas uma possibilidade mais vaga e subjetiva de lidar com o que, por ser carnal e vivo, não pode ser completamente esbatido, embora possa ser processado e suportado sem esbater a capacidade de viver, apesar da dor.
Por outro lado, a nossa divergência parecia mais do mesmo da dificuldade humana ancestral de conciliar espírito e matéria ou, mais ainda, corpo e alma. O dia a dia dos cuidados à saúde padece disso, que também se faz presente nas expressões das artes e da cultura ao longo dos séculos. Difícil fazer a integração, e a tendência é polarizar, sendo raros aqueles que se dispõem a dar conta de mais de uma dimensão e a juntar alma com corpo.
Findas as explicações, quando eu e o médico nos despedimos, houve aquela sensação de, naquele breve instante de um abraço, estarmos juntando.
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