Já faz algum tempo que uma cena de cinema tem sido lembrada como analogia para as crônicas contemporâneas: Charles Chaplin, na figura de Adenoid Hynkel em O Grande Ditador. Numa dança sensual, ele suspende o globo no ar, em êxtase e caprichoso equilíbrio.
Enquanto o Ditador de Chaplin é a própria megalomania estética — o desejo infantil e perigoso de possuir o mundo como um brinquedo —, há uma sequência emblemática em outro filme que captura algo mais visceral e contemporâneo: a euforia da autodestruição. Ela está em Dr. Fantástico (Dr. Strangelove ou: Como Aprendi a Parar de Me Preocupar e Amar a Bomba), de 1964, dirigido por Stanley Kubrick. O filme, sátira à Guerra Fria, é um clássico atemporal do humor negro.
Relembrando para quem assistiu, e recomendando aos demais, a narrativa apresenta o genial Peter Sellers em três papéis nos quais comprova sua versatilidade cômica e dramática.
Um dos personagens de Sellers é o Capitão Lionel Mandrake, oficial da Força Aérea Britânica empenhado em demover o General Jack D. Ripper (Sterling Hayden) de atacar a União Soviética. O lunático Ripper está convencido de que os comunistas estão poluindo os “fluidos corporais” da América. Ele representa a paranoia que ignora a lógica; um alerta de que o fim do mundo não precisa de um vilão astuto — basta um idiota com autoridade.
Sellers interpreta também o prudente, mas ineficaz, Presidente dos Estados Unidos, Merkin Muffley, que, ao telefone com um embriagado líder soviético, negocia para evitar o apocalipse atômico. Seu terceiro papel é o do excêntrico conselheiro científico Dr. Strangelove, um ex-nazista preso a uma cadeira de rodas.
Strangelove vive em permanente luta com o seu braço mecânico, que tem vida própria e é, por si só, um alucinado elemento do roteiro. Ele encarna uma metáfora perfeita do Estado: um corpo que não controla os próprios membros. O cientista confirma a existência de um dispositivo de retaliação automático em poder dos soviéticos, a “Máquina do Juízo Final”, denominada assim sem qualquer exagero. Automática, impossível de ser desligada. Sendo atacados, os russos irão revidar.
No entanto, é a cena final que destaco. Ela originalmente foi escrita para ser o quarto papel de Peter Sellers. Ele desistiu por três motivos: dificuldade com o sotaque texano, uma perna fraturada à época e desconforto para filmar dentro de uma apertada cabine do bombardeiro B-52. Foram buscar um autêntico competidor de rodeios, o ator Slim Pickens. Ele brilha agitando o chapéu de cowboy e gritando como um peão em festa, quando o seu personagem, o Major “King” Kong, aparece cavalgando uma ogiva nuclear, com o entusiasmo de quem tem, literalmente, um deus em júbilo dentro de si.
Imagem icônica, cada vez mais nítida, a sugerir uma real e perturbadora vocação.
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Foto da Capa: Montagem do Autor

