Vamos celebrar a fome
Não ter a quem recorrer
Não se ter a quem abraçar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração
É o dia Mundial da Alimentação!
Tomei a liberdade de fazer uma pequena paródia sobre “Perfeição”, composição de Dado Villa-Lobos, Marcelo Augusto Bonfá e Renato Russo, que foi sucesso da banda Legião Urbana, nos anos 1990. A letra original tem alto teor crítico e nos faz pensar sobre comportamentos nefastos que (também) moldam os brasileiros.
A data de 16 de outubro marca o Dia Mundial da Alimentação. Celebrado desde 1981, remete à fundação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), em 1945. E como Porto Alegre “festeja” os 80 anos da FAO? Fechando a Cozinha Solidária da Azenha, que atua na Capital desde o período da pandemia de Covid-19. Em 2024, no auge da catástrofe climática vivida pelo Rio Grande do Sul, ao lado de mais três cozinhas solidárias, foram servidas 450 mil refeições de forma totalmente gratuita.
Foi em janeiro de 2024 que comecei a frequentar a Cozinha Solidária da Azenha, em Porto Alegre. Inicialmente, como simpatizante do evento Tempero de Luta, uma iniciativa promovida mensalmente, com atrações culturais e pratos muito saborosos, para apresentar o trabalho de segurança alimentar desenvolvido em benefício de trabalhadoras e trabalhadores sem teto. Depois, a partir de 3 de maio, engajei como apoiador direto, mobilizando pessoas, doações e, sobretudo, aprendendo lições diárias, como descrevi no artigo “Uma escola chamada Cozinha Solidária”. Atualmente, sigo fazendo doações regulares para contribuir na manutenção do espaço que serve dignidade em forma de refeição.
Na última sexta-feira, 10 de outubro, soube que houve a interdição do espaço, situado na Avenida da Azenha, 608. Tenho extremo apreço pelo lugar que conheci pessoalmente, vendo a total dedicação das pessoas que lá trabalham e lutam contra a fome, algo que persevera no Brasil, o país da contínuas supersafras e dos altos recordes em exportação de proteína animal. A despeito disso, “quem tem fome tem pressa”, nos ensinou Terezinha Mendes da Silva, mineira que foi amiga e parceira do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, na criação da Ação pela Cidadania.
A fome não é conhecida por muitos que leem esse texto. Conhecem o apetite, mas a fome, deve ser bem poucos. Essa fome também não assola os lares (ter lar é um privilégio!) de quem usa sua caneta para assinar a interdição de um lugar onde se serve comida e café da manhã como um ato solidário e também legal, ajudando a tornar realidade o que está no artigo 6º da Constituição Federal (consulte aqui).
Apesar do Brasil ter deixado o “Mapa da Fome”, um indicativo usado pela FAO, o Rio Grande do Sul ainda possui 15,8% da sua população que vivem com insegurança alimentar, segundo os dados do módulo Segurança Alimentar da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, levantamento feito por por meio de uma parceria com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome.(clique aqui).
Se há algum problema, que se ajude a encontrar a solução, com diálogo e atenção. O que não é aceitável é deixar de servir 800 refeições diárias que dão o mínimo de dignidade à existência humana. “Toda a pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para lhe assegurar e à sua família a saúde e o bem-estar, principalmente quanto à alimentação”. Isso está no artigo 25º da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Quem esteve ao meu lado, lá na Azenha, 608, mesmo que por um dia, por uma semana ou por um mês durante as enchentes, viu o brilho nos olhos de quem preparava a comida, servia as marmitas, limpava as panelas, cortava os legumes, lavava o chão ou saía pelos bairros distribuindo quentinhas. Todas essas etapas são nobres no processo.
Desde aquela época, muitas melhorias estruturais e de qualificação da equipe foram implementadas. Eu as vi pessoalmente. Reformas, equipamentos novos, adequação às normas sanitárias e de segurança, cursos sobre boas práticas de manipulação de alimentos, entre outras iniciativas. Visite o perfil @cozinhasolidariars e veja como esse ambiente é capaz de unir, em prol da sua causa, apoiadores voluntários, lideranças, pessoas em situação de vulnerabilidade e até celebridades, como a chef Paola Carosella, que pôs a mão na massa, lá dentro, ou Chico Buarque do Holanda, na solicitação de apoio.
Poderia listar mil argumentos, leis, decretos e outras formas de sustentação nesse texto. Porém, o necessário, nesse momento, é empatia. Seja das pessoas apoiadoras, seja das associações de empresários, seja do Poder Público nas esferas municipal, estadual e federal. Recordem que a missão da Cozinha Solidária é promover a segurança alimentar e a nutrição como ponto de partida para a conquista dos outros direitos fundamentais.
Por favor, não se cale. Apoie!
Eduardo Borba é jornalista graduado pela PUCRS, pai, integrante de ações para promover a Diversidade, Equidade e Inclusão, como a Odabá - Associação de Afroempreendedorismo e a Comissão Antirracista do Colégio João XXIII. Mestre em Comunicação Social, é especialista em Direitos Humanos, Responsabilidade Social e Cidadania
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Foto da Capa: Marco Faria / Divulgação


