Conforme eu já disse aqui em mais de uma ocasião (com especial ênfase neste texto), eu me declaro ateu. Me declaro ateu porque penso ser um ato político necessário em um mundo de ascensão do neopentecostalismo agressivo e argentário contemporâneo. Mas se me perguntarem o que realmente creio, acho que eu seria o equivalente espiritual a um “isentão”: considero que, na prática, somos todos, eu, vocês, os neopentecos, agnósticos. Isso porque não temos como provar o que acreditamos, então nos agarramos à crença de que estamos certos.
Em outras palavras: não temos como saber com certeza e comprovação verificável se há um Deus, um pós-vida ou, na hipótese de existirem essas duas coisas, se elas correspondem ao pensamento cristão hegemônico desta parte do planeta ou se estão de acordo com os ditames de alguma das outras mais de 4 mil religiões espalhadas pelo planeta. Nesse sentido, talvez uma das grandes peças do humor contemporâneo seja aquele esquete do Porta dos Fundos em que a Clarice Falcão vai parar no além e descobre que só tem polinésio no céu porque a única religião que estava certa era a de um conjunto de ilhas com menos de cinco milhões de habitantes (este aqui).
Bom, como eu dizia, eu me declaro ateu porque fundamentalmente não acredito nos postulados de religião nenhuma. Eu me interesso pela narrativa religiosa como me interesso por qualquer mitologia, e penso que não existe nada que separe o teor de uma história fantástica das lendas defendidas por religiosos. Tenho, no entanto, severas restrições a que essa ou qualquer outra mitologia seja usada como base moral e legal no mundo em que eu vivo.
Se você acredita que um ser divino se manifesta na forma de um arbusto em chamas (Êxodo 3:2), de um burro falante (Números 22:28) ou de ursas que estraçalham crianças porque tiraram onda com um careca (2 Reis 2:23), bom, o problema é seu. Agora, se você acha que todo mundo, inclusive eu, tem de obedecer 10 instruções de coach inscritas num par de tábuas porque supostamente elas foram entregues por Deus a um véio de barba milhares de anos atrás, bem, aí quem tem um problema sou eu. Também por isso, minhas simpatias na luta da igreja hegemônica com as que representam grupos minoritários estão do lado destas últimas. O fato de eu considerar a crescente perseguição evangélica aos centros de culto do candomblé e outros um absurdo não me convence em momento algum de que os orixás existam fora do domínio da cultura. Para mim, é tudo superstição, só não acho válido que uma delas seja usada como justificativa para a supressão da outra.
Ira e lógica
No que creem, então, ateus? Bom, para começo de conversa, não consigo ver um corpo doutrinário coerente entre os ateus de variada natureza, justamente porque sem Deus não há necessariamente doutrina. Mesmo o posicionamento público de ser um prosélito do ateísmo ou não é discutido. Outros podem muito bem conciliar sua visão com alguma ideia meio namastê da “natureza como ser divino”, ainda que produto de uma série de combinações de acasos. Mas, de modo geral, penso que ateus, não crendo em explicações metafísicas sobre a existência e o mundo, estão obrigados a acreditar em duas coisas como fundamento básico: 1) a melhor explicação para os fenômenos que ocorrem no mundo é a obtida pela ciência. 2) aquilo que a ciência não consegue explicar talvez seja explicado por evoluções técnicas ou metodológicas no futuro ou não venha a ser conhecido nunca, mas isso não autoriza ninguém a pensar que, tendo a ciência alcançado um limite, a partir daí valem a fantasia e narrativas místicas ancoradas num entendimento freestyle da realidade material.
Pegando apenas dois exemplos bem básicos… Assim como um desconhecimento parcial de como foram construídas certas edificações do mundo antigo não autoriza ninguém a achar no automático que foram alienígenas, o fato de determinados tratamentos gerarem uma ou outra vez resultados positivos fora de qualquer prognóstico para qualquer relato conhecido na história da Medicina não deveria ser evidência suficiente de um milagre. Ou, ainda: acidentes naturais perfeitamente explicáveis não são base lógica para você sair gritando por aí que “a Ira de Deus” recaiu sobre alguém.
Que Deus elimine todos vocês
Retomando um ponto que tratei na semana passada, o quanto ainda me pego surpreendido pela passagem do tempo, acordo para o fato de que o tsunami no Oceano Índico que castigou países da Ásia em 2004 ocorreu há mais de 20 anos. Tem gente nascida depois daquilo que hoje anda por aí apresentando currículo para estágio, mas uma das vantagens de ser velho é ter estado lá para lembrar que, na sequência de uma tragédia que devastou a Indonésia e atingiu também partes de Sri Lanka, Malásia, Índia e Tailândia, deixando estimadas 227 mil pessoas mortas, não foram poucos os pastores evangélicos norte-americanos que apareceram para bradar aos quatro ventos que o desastre natural era um “castigo divino”. É um comportamento infeliz, mas não incaracterístico desse tipo de personagem, já que muitos cristãos neopentecostais contemporâneos gostam de se comportar como o pior tipo de “irmão” que se pode ter, aquele que finge obediência, transige as regras a qualquer oportunidade, mas que na primeira chance dedura você para o pai abusivo, torcendo para que ele te quebre na porrada enquanto ele assiste sorrindo por dentro.
Me recordo particularmente de um desses homens de Deus, que se chamava Henry Blackaby e é autor de livros que, descobri com tristeza pesquisando para este texto, já foram amplamente traduzidos no Brasil. Blackaby alegou, em uma convenção de pastores, que ele reconhecia a “mão pesada de Deus” na tragédia. Vocês talvez não se lembrem disso também, mas antes de se tornarem a base da atual extrema direita em ascensão, os evangélicos pentecostais de matrizes estadunidenses em todo o mundo tentavam aplicar, no início deste século em que tintas mais progressistas tingiam o horizonte, a ideia de que os cristãos eram a verdadeira religião mais perseguida do planeta. As declarações de Blackaby na época iam por esse caminho, sustentando que o tsunami era um castigo do Altíssimo contra países de maioria não cristã e que “perseguiram” e “seguiam perseguindo” missionários cristãos (ele tirou de algum lugar onde o sol nunca brilha a estatística de que 500 mil cristãos eram mortos anualmente, a maioria nas mesmas regiões afetadas).
Ali por 2010, um dos grandes intelectuais que o mundo já teve, Christopher Hitchens, também ateu e que militava pela causa com muito mais brilho do que sequer sonho em ter, foi diagnosticado com câncer de esôfago. Sendo Hitchens um crítico feroz da religião organizada com uma viva presença digital nas redes sociais, principalmente no Twitter, não foram poucas as mensagens que se rejubilaram com essa circunstância, ou provocaram que agora que estava ameaçado por um problema concreto e terminal, ele provavelmente sentiria o medo do fim e se converteria, ou arderia no Inferno, dado que aquilo só poderia ser punição divina. Hitchens se manteve altivo até o fim, enunciando o postulado básico para rebater a formulação idiota de que “não há ateus na ala terminal”. Mesmo que isso fosse verdade, isso só comprova o que pensa um ateu, e não o desacredita. Ateus pensam que Deus, deuses, paraísos e infernos são ficções de conforto inventadas pela humanidade para afastar o horror existencial da hipótese mais provável: a de que estamos sozinhos, a vida é fruto do acaso e se desvanece depois de um tempo breve para nunca mais. Que pessoas às portas da morte “se voltem para Deus” não prova que Deus existe, mas prova com sobras que as pessoas o procuram por medo.
Além do mais, veja, sem Deus como uma explicação, você precisa ficar com a ciência, e na maioria das vezes suas razões não são tão narrativamente atraentes como a existência de um demiurgo vingativo. São até mesmo anticlimáticas, o que não significa que não estejam corretas. A Ásia, por exemplo, é um continente localizado sobre uma área na qual, nas profundezas da Terra, várias placas tectônicas se encontram. Devido a isso, a região concentra também o maior número de vulcões ativos e terremotos do planeta. Nesse quadro, o tsunami de 2004 impressionou por sua intensidade, mas nunca por sua existência. Não há sentido ou lógica alguma em olhar para o que ocorreu na Indonésia e pensar que, ao contrário do que registra a tendência de regularidade desses fenômenos, aquele em particular tenha sido resultado da mão pesada de ser metafísico algum.
Christopher Hitchens era um sexagenário sedentário, fora de forma, consumidor de doses hectolítricas de álcool e fumante inveterado. Como ele mesmo escreveu numa carta aberta na qual reforçava seu ateísmo mesmo diante da morte, pensar que alguém com esse perfil desenvolver um câncer compatível com seu estilo de vida é “castigo divino” é o mais puro delírio.
Raios
E aí temos, claro, raios. Não é de estranhar a longa história de fascínio da humanidade com raios e tempestades, dada a força que esses fenômenos naturais exibem – e o fato de que, embora um raio possa subir do chão ao céu, o contrário é o mais comum, fazendo do raio uma espécie de mensageiro entre o mundo e o que está no alto. Raios eram as armas de Zeus para fustigar os homens, como apontavam os gregos. A Bíblia anota várias ocasiões em que Deus usa o Raio como um símbolo de sua magnificência ao se apresentar diante de humanos (um pouco como as luzes de um carro alegórico). No Êxodo, os raios e trovões são os efeitos especiais que Deus utiliza ao descer sobre o Sinai para falar com Moisés diante do povo, na forma de uma nuvem. Nos livros de Salmos e de Samuel, ele é mostrado fulminando inimigos dos israelitas, lançando raios do céu, como Zeus fazia. Na antiguidade, havia ainda toda uma disciplina obscura dedicada ao poder de invocar raios e de ler o destino nas luzes dos trovões, numa tradição esotérica que pode ser traçada dos etruscos aos romanos (leiam, por exemplo, Sobre a Adivinhação, de Cícero). O Frankenstein que recentemente voltou à mitologia da cultura pop com a nova versão de Guillermo Del Toro mantém a tradição, inaugurada cedo no cinema, de que o monstro ganha vida por meio da energia elétrica dispendida pelo raio atraído durante uma tempestade – curiosamente, essa origem “elétrica” do monstro não é detalhada no livro de Mary Shelley, mais lacônico e elíptico sobre como o pesquisador Viktor animou o conjunto de membros cadavéricos que reuniu para o corpo de sua criatura.
Essa é a parte mitológica e literária da coisa, que conheço bastante, e devo confessar que não sou um sujeito particularmente versado nos aspectos meteorológicos, sei o que aprendi no colégio e deu. Mas, na esteira de alguns acontecimentos da última semana que, imagino, vocês ouviram falar, veio a público a informação de que o Brasil é, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), campeão de ocorrências de descargas atmosféricas em números absolutos. Não significa que o Brasil tenha a maior densidade de cargas elétricas, apenas é o maior nos números brutos – e é razoável, de qualquer modo, pensar que um país com tão larga extensão territorial e tanta variedade climática esteja mesmo entre os que mais recebem raios.
Imagino que isso também tenha sido ensinado para a maioria de vocês, mas é perigoso estar sem abrigo na chuva em um terreno muito amplo e descampado – e, como consequência, o gado no Brasil é quem sofre especialmente com esse tipo de ocorrência porque tende a passar muito tempo agrupado em áreas abertas, expostas aos elementos.
Nikolas
Nikolas Ferreira é um deputado conservador que fala coisas demasiadamente ásperas para um indivíduo tão jovem. Ele é um cristão convicto e um boquirroto condenado – foi condenado pela Justiça de Brasília ao pagamento de R$ 200 mil por danos morais por declarações transfóbicas em 2023. Ele já disse que homossexuais são pecadores que vivem numa ilusão e “servem ao diabo”. Ele já defendeu na tribuna da Câmara um pastor que declarou que “se Deus pudesse, mataria todos os homossexuais”. Na ocasião, o discurso do deputado não rebateu de verdade a acusação feita contra o pastor, mas, como é comum na extrema direita que ele representa, tentou inverter a situação usando cortina de fumaça dizendo que “comunista estava tentando ensinar cristão a ler a Bíblia” e que “quem matou mesmo foi Fidel Castro” – nisso ele, infelizmente, está até certo, mas não serve como justificativa. Fidel Castro já morreu, e o pastor ignorante está vivo, então não há dúvidas sobre quem representa o maior perigo agora.
Acho especialmente curiosa essa declaração do tal pastor também pela maneira como foi formulada: “Se Deus pudesse, mataria todos”. Qualquer cristão argumenta que Deus pode tudo. Algo que ele não faz é porque não quer. E se não quer, talvez você também devesse parar de querer, como a fala do pastor ignaro insinua. Nisso, aliás, está outro erro do deputado, além de todos os demais: muitos comunistas, formados na tradição rigorosa da crítica e da exegese, estariam mais do que plenamente capacitados para ensinar interpretação bíblica a muitos dos cristãos semianalfabetos contemporâneos que vociferam sua baba elástica ao falar do assunto (muitos deles, aliás, pastores).
Parece que Nikolas anda enrolado na questão do Banco Master, também, mas sobre isso eu realmente não tenho conhecimento, e em vez de dizer alguma coisa a respeito, o deputado preferiu dar uma de Forrest Gump da extrema direita nacional numa caminhada a pé em nome da anistia aos crimes do ex-presidente, aquele, hoje na cadeia, e dos golpistas que tentaram derrubar a democracia em janeiro de 2023. É interessante que Nikolas advirta o tempo todo que o “pecado é o pecado”, e que suas escolhas de adesão sejam sempre essas manifestações cheias de violência e fúria. Acho curioso.
O fato é que um grupo esperava a passagem da caravana (pensando bem, “caravana” vem do árabe “fila de camelos”, e não quero ser acusado aqui de estar comparando os apoiadores do deputado a animais de carga de qualquer natureza, então talvez fosse melhor “procissão”, dadas as óbvias conotações religiosas extremadas do grupo?) – do grupo principal, digamos – quando foi atingido por um raio. Com o resultado de 30 pessoas gravemente feridas, dentre umas 70 ao total. Um grupo de corpos aglomerados numa paisagem plana tomou um raio em um país que lidera o ranking de descargas em números absolutos. Veja só. Sendo eu um ateu, tenho total liberdade para enxergar o fenômeno pelo que foi: um acidente bizarro, mas lamentável, no qual feriram-se um bom número de pessoas. Uma pena que tenha acontecido, que bom que ninguém morreu, mas era isso, e nada mais.
Talvez quem devesse pôr a mão na consciência e pensar um pouco – ou muito, aliás – sobre esse fenômeno seja quem acredita com todas as forças de sua fé e proclama aos tantos ventos quanto existam que vivemos sob o tacão de um Papai Noel escondido nas nuvens e que fenômenos naturais não são o que são, e sim manifestações de uma consciência voluntariosa e caprichosa em seus desígnios.
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Foto da Capa: SBT / Reprodução

