O corpo do servidor jazia inerte, debruçado sobre a mesa de trabalho daquela repartição pública de um longínquo país. Do crânio esfacelado se espalhava uma massa cinza-avermelhada informe, esparramada sobre processos, comunicações internas, ofícios e guias do recolhimento. Os olhos opacos do morto fixavam, no outro extremo da mesa, um carimbo recém-colocado sobre a respectiva almofada. Ao lado, em meio aos papéis em desarranjo, um copinho descartável de café, consumido pela metade.
A mesmice sobre a qual repousara a harmonia daquele setor administrativo fora brutalmente esfacelada, junto com os miolos do infeliz. A estupefação aumentara ainda mais, contudo, ao se perceber que o desditoso servidor havia sido golpeado com uma pilha de processos não digitalizados por despachar, amarrados com barbante num volume que mostrou-se mortífero. Houve quem dissesse que ele, o desditoso servidor, havia sido vítima da sua morosidade, pois se não se tivesse acumulado tantos processos a despachar, a pilha ter-lhe-ia sido menos letal… Maledicências impiedosas. Em verdade, aqueles dias foram de verdadeiro escândalo e estupefação na repartição, de vez que o crime apenas fora constatado em virtude do forte malcheiro que o corpo passou a exalar, sete dias após consumado o assassinato. Colegas de trabalho arrolados em inquéritos administrativo e policial, questionados quanto ao presumido descaso com o andamento das tarefas e sumiço de um colega, defenderam-se afirmando que o comportamento funcional da vítima, usualmente nulo em termos de produtividade, não permitiu presumir algo anormal, em face do seu desaparecimento e morte. Tais colegas declararam tão somente certa queda no consumo do café, mas isso não lhes pareceu suficiente para presumir o pior.
A surpresa das surpresas, o choque, o frisson que tornaria o episódio de fato insólito viria, contudo, com a descoberta de um bilhete deixado sobre a mesa de trabalho do desditoso, com texto montado com recortes de manchetes de jornal impresso, em que se lia:
“A pilha de processos foi a tua perdição
Tua inércia te matou
Não és o único
Haverá outros.”
“Haverá outros…”, repetia-se em voz baixa pelos corredores da autarquia. “Haverá outros!!!”, rosnavam ameaçadores os usuários do serviço, uma vez a par do episódio recente, e no interesse do andamento dos respectivos processos, ofícios, comunicações e assemelhados.
Algo inusitado se operou na repartição. Instalou-se certo medo, e este medo alterou o ânimo, decuplicou a disponibilidade, restabeleceu o horário de expediente. Ao baixar a pilha de processos encalhados, surgiram escolhos preocupantes, a expor um incontornável quadro de nonsense administrativo: demandas inadequadas junto com demandas urgentes, prazos de há muito vencidos, e, sobretudo, a desagradável constatação da existência de mais servidores do que tarefas a contemplar. Este último aspecto agravou-se em face do retorno súbito de uns tantos, há muito ocupados com outras funções, em “disponibilidade” noutros setores, muitos dos quais extintos, inexistentes ou meramente desnecessários.
O ritmo daquela repartição mudou drasticamente, freneticamente, o que quebrou a harmonia anterior de toda uma quarta parte do organograma administrativo geral do serviço. A hostilidade já era palpável nas conversas (agora menos frequentes) entre servidores, durante o expediente.
O Responsável-Geral Adjunto sentiu a gravidade da situação no dia em que solicitou a determinado setor um parecer em processo e o recebeu de volta quinze minutos depois. Era necessário tomar uma atitude COM URGÊNCIA, e ao repetir mentalmente esse “COM URGÊNCIA”, deu-se conta de que, mesmo ele, insigne Responsável-Geral Adjunto, começava a se contaminar… Afinal, propunha-se a agir num ritmo absolutamente inusual… Optou por não se entregar à insidiosa onda de subversão que surgira em seus domínios, desagradável como o trabalho às sextas-feiras. Da tomada de consciência, passou à ação, redigindo Comunicação Interna à Chefia Geral solicitando reunião URGEN… isto é, com a brevidade possível para tratar de assunto relevante. A Comunicação foi protocolada e enviada, chegou às mãos da Secretária Executiva do Gabinete da Chefia em quarenta e cinco minutos, retornando à instância interessada com a devida resposta em dez minutos (o problema, indubitavelmente, se agravava).
A data da tal reunião foi marcada. Não obstante, a reunião não foi realizada, a comissão especial se desfez, o grupo de trabalho foi desmobilizado, e a paz retornou à repartição. Fora localizado e preso, nesse ínterim, o sinistro tarado antiburocrata, autor do crime, um usuário a quem se havia solicitado prova de vida para a continuidade da tramitação da demanda, o que o deixou incontrolavelmente transtornado, tendo passado ao ato criminoso. Com a prisão do desditoso, restabeleceu-se o delicado equilíbrio e a homeostase que regula o serviço público nesse longínquo país.
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Foto da Capa: Freepik

