Uma menina com sua mãe ao meu lado. O pai está duas fileiras atrás na poltrona do corredor. Estou na janela por duas razões: porque gosto de ver a Terra redonda e porque gosto da pseudoprivacidade que ela me confere. A menina diz: ‘Também te amo, vovó’. A mãe liga o áudio. A vovó diz: ‘Boa viagem, minha filha, boa viagem, netinha, a vovó ama muito, muito (diversas vezes ela diz muito) vocês!’.
Eu sinto a costumeira punhalada no peito de quem, há muitos anos, se locomove de lá para cá sem esse tipo de amor.
Na fila para o embarque, eles estão atrás de mim. Conversam sobre o Brasil e as companhias aéreas. Um deles diz que 97% de todos os processos do mundo nesse setor acontecem aqui no nosso país, a maior parte deles envolvendo golpes. Aí fico curiosa. Que tipo de golpe?, me pergunto. O mais comum parece ser o da mala. Duas ou três pessoas embarcam, cada uma com uma. Quando chegam ao seu destino, na esteira, um ou dois pegam toda a bagagem e saem, e o que fica abre um processo por mala extraviada e nunca encontrada.
Chego no aeroporto muito antes do que preciso. Não consigo mudar esse hábito. Tenho pavor da ideia de perder um voo e também de ter de fazer tudo correndo. Dessa vez, não adianta nada. Os totens para check-in não estão funcionando e a fila para isso e para despachar malas se torna uma só. 90 minutos depois, o homem que está atrás de mim chama uma funcionária que está passando e diz: “Cheguei no horário que deveria e vi várias pessoas dessas que chegam na última hora de outros voos passarem na minha frente. Então, a senhora me diga qual é a vantagem de ser pontual”. Ela pergunta o horário do voo. É o mesmo meu. Fala a ele que já vai resolver. Eu aproveito e digo: “Como você vê, estou na frente dele, o que significa que também levo o relógio a sério”. Somos os dois imediatamente atendidos.
Em minha última viagem, meu relógio desapareceu depois de eu ter passado pelo Raio X. Não o perdi exatamente porque ele está aqui no meu pulso. Mas houve uma confusão com as bandejas na esteira, minhas coisas foram passadas de uma para outra e, com essa quebra de padrão, por alguma razão, quebrei também o meu de conferir tudo o que coloco. Faz 24 anos que eu tenho esse relógio. É valioso afetiva e materialmente. Quando o comandante falou: “Tripulação, preparar para a decolagem” e vi que eu estava sem, quase pedi pra descer do avião. Sou uma mulher com muitas perdas. Nunca sei se a próxima, mesmo que seja de um objeto, não será minha gota d’água. Então tive de respirar fundo e me dizer: calma, vai dar tudo certo, quando você chegar no próximo aeroporto, resolve.
Nessa viagem, pois, me organizo como se eu fosse do signo de virgem. Coloco todas as coisas em pequenas bolsas para que nada caia da grande e para que eu possa visualizar tudo rapidamente. Ela há de ser tranquila. Nada ficará para trás na hora da esteira. Pois, passando no Raio X, ele apita. Fui escolhida pelo modo aleatório para revista completa. Três por cento ao dia de quem passa é selecionado. A funcionária me diz, já perguntando se quero que seja na área reservada. Não. Não tenho nada a esconder e nenhuma vergonha de mim mesma. Parece esquisito dizer, mas eu me admiro. Logo, não é qualquer coisa ou qualquer pessoa que abala minha autoestima. Cuido para que isso não aconteça. No mínimo sinal de que alguém está tentando, saio de cena. Então ela pede que eu tire os sapatos e os encaminhe junto com meus casacos. Dois. Sou friorenta. E me fala para abrir os braços. ‘Jesus Cristo! Eu estou aqui” é a minha pose. E aí ela usa as mãos. Pensei que usaria apenas o detector de metais. De frente e de costas, ela toca e contorna meu pescoço e meus ombros. Desce apalpando minha barriga, coxas, barriga das pernas. Eu estou de vestido. Um vestido leve, solto e curto. Dá para ver que não há nada no meu corpo. Mas, enfim, ela cumpre sua função, eu presumo. Não tenho absoluta certeza.
O céu está cheio de nuvens. Filmei o exato momento em que o avião foi engolido por elas. Esqueci de filmar o instante em que ele as deixou lá embaixo. Eu gosto de altura e me encanta essa camada que cobre o planeta como um véu ou uma toalha de renda. Sinto meu peito assim rendilhado. Quem sabe rasgado. Tenho sempre tanto cuidado para não ferir as pessoas. Não consigo aprender que a recíproca nem sempre é verdadeira. E a moça da poltrona em frente à minha, acho que sofre da mesma estupidez. Chora gravando um áudio. Não escuto muito bem o que diz, mas escuto quando ela fala: “De novo, você me magoou”. Acho um fiasco isso de magoar alguém. Não entendo falta de zelo e de respeito.
As nuvens dão as caras justo agora que estamos quase chegando. Treme a aeronave. Estamos passando por uma área de turbulência, a comissária avisa. Penso em parar de escrever. Digito este texto no bloco de notas do celular. Não paro. Não gosto de desistências. Só eu sei o que significa para mim desistir de algo ou alguém. Mas reduzo a velocidade da escrita para olhar a vida além das nuvens que desaparecem. A vida lá fora parece azul.
24 graus em SP.
Ver a cidade me enche de alegria.
PS: Olho para o lado. Mãe e filha, abraçadas, dormem não sei desde que momento. Sei que adoraria ter um abraço assim.
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Foto da Capa: Freepik

