Pego carona e vou na sombra da Cassia Zanon, que pergunta (no LinkedIn) por que um brasileiro preferiria comprar um carro da biuaidi em vez de um da bid?
A provocação da Cassia é absolutamente pertinente. Há um novo idioma, algo como uma língua internacional nascida nas redes sociais, sob inspiração das grandes empresas de tecnologia (opa… eu quase escrevi big techs…) que vai sendo assimilada por toda gente na velocidade em que se intensificam as comunicações à distância e as línguas nacionais vão sendo sufocadas por abreviaturas e expressões que mais atendem ao apetite dos algoritmos do que enriquecem os diálogos do cotidiano.
Vivemos o tempo de aprofundamento do Internetês quando muita gente, seja lá qual for a sua língua pátria (língua pátria… coisa já meio superada, né?), prefere ir a um meeting para um brainstorm dos feedbacks entregues por stakeholders sobre o mindset empresarial com a participação de heads coordenados pelo CEO (Chief Executive Officer) e pelo CFO (Chief Financial Officer) em vez de participar de uma reunião com o diretor executivo, o diretor financeiro e os gerentes para debater retornos dos parceiros sobre a atuação da empresa…
O Internetês, além dessa preferência por palavras em inglês, tem gosto pelos neologismos derivados da língua do Tio Sam, como estartar em vez de começar, brifar em lugar de informar ou esse biuaidi em vez de bid (BYD).
E a tendência é, cada vez mais, nossos diálogos se darem nessa novilíngua… Aliás, por falar em novilíngua, você (tem alguém aí?) lembra do 1984, o famoso e bem vendido (tá bom… best seller) romance do George Orwell? Pois é… naquela obra, lançada em 1948 ou 49, o escritor britânico conta que um governo superautoritário, liderado pelo Grande Irmão (Big Brother), usava uma Novilíngua (Newspeak, no original) para controlar e manipular as pessoas.
Diferentemente de hoje, quando, quase diariamente, temos palavras novas aparecendo, a língua do autoritário Grande Irmão eliminava e reduzia palavras que pudessem, de alguma forma, desafiar o poder.
A forma era um pouco diferente, o objetivo é o mesmo: obter o máximo de informação possível sobre o nosso cotidiano e, assim, manipular nossas vontades e nos empurrar, cada vez mais, pelo caminho que lhe renda (ao Grande Irmão, as grandes corporações de TI) o maior lucro possível com o menor risco.
O Grande Irmão imaginado por Orwell, lá na metade do século 20, bem pode ter sido o bisavô do grande vigia controlador dessa enorme rede de máquinas que nos enxergam até enquanto dormimos e deixamos o computador ligado.
Quantas vezes, minutos depois de ter feito uma consulta qualquer a um desses aplicativos de pesquisa (braços longos do nosso atual Grande Irmão), o Google, por exemplo, você já recebeu mensagens relacionadas ao que pesquisou?
E agora temos aí a Inteligência Artificial, essa sobrinha bisneta do Grande Irmão orwelliano que tanto pode ajudar como pode atrapalhar a nossa vida. A jovem e influente IA responde, em segundos, tudo o que perguntamos. Até compõe músicas, se quisermos. Desde que alguém já tenha feito uma música tratando do tema que sugerimos ou tenha escrito ou falado sobre o assunto que pedimos que a IA escreva para nós.
E assim vamos, comprando biuaidis, sofrendo burnouts e adaptando nosso mindset para entregar ao nosso head o feedback que ele espera…
Eu, de minha parte, uso, claro, a Inteligência Artificial, mas com muito cuidado para não virar um sedentário cognitivo… Principalmente depois dessa conversa rápida que eu tive com ela:
Eu: o uso da IA pode me transformar num sedentário cognitivo?
Ela: Sim, o uso excessivo e passivo da inteligência artificial pode contribuir para um tipo de sedentarismo cognitivo — ou seja, uma diminuição do esforço mental necessário para pensar criticamente, resolver problemas e aprender.
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Foto da Capa: Gerado por IA.

