Durante muito tempo, o sofrimento psíquico no trabalho foi tratado como uma questão privada, quase silenciosa, pertencente ao indivíduo e não à organização. A psicanálise, desde Freud, nos ensina que aquilo que não encontra palavra tende a aparecer como sintoma. No ambiente corporativo, esse sintoma muitas vezes se manifesta na forma de ansiedade, depressão, esgotamento ou afastamentos prolongados. O que antes era considerado fragilidade individual começa, finalmente, a ser compreendido como expressão de algo que também pertence ao campo das relações e das estruturas organizacionais.
Nesse cenário, a discussão sobre segurança psicológica ganha centralidade. Mais do que um conceito contemporâneo de gestão, trata-se de uma condição essencial para o funcionamento saudável das organizações: a possibilidade de existir, pensar, discordar e contribuir sem medo de punição ou humilhação. Como afirma Amy Edmondson em seu livro The Fearless Organization: “Segurança psicológica é a crença compartilhada de que o ambiente é seguro para assumir riscos interpessoais.” Quando essa condição não existe, instala-se uma cultura de silêncio que empobrece a inteligência coletiva e aumenta o sofrimento emocional no trabalho.
A recente ampliação das diretrizes da NR‑01, ao incluir os riscos psicossociais na gestão de segurança e saúde no trabalho, representa um avanço importante nessa direção. A norma reconhece que o ambiente emocional também constitui um fator de risco organizacional. Pressões excessivas, lideranças autoritárias, ausência de escuta ou relações marcadas pelo medo podem produzir efeitos concretos sobre a saúde mental dos trabalhadores.
Os dados ajudam a compreender a dimensão do problema. Informações da Previdência Social mostram que mais de 546 mil afastamentos do trabalho foram concedidos no Brasil por transtornos mentais e comportamentais, sendo que cerca de 63% desses benefícios foram destinados a mulheres. Esses números revelam não apenas o crescimento do adoecimento psíquico no trabalho, mas também a forma desigual como ele incide sobre a experiência feminina no mercado profissional.
Essa desigualdade tem raízes profundas. Muitas mulheres transitam diariamente entre múltiplos papéis sociais: profissionais, cuidadoras, mães e gestoras da vida doméstica e emocional das famílias. Ao mesmo tempo, ainda enfrentam contextos organizacionais marcados por desigualdade salarial, menor reconhecimento de liderança e a exigência constante de provar sua competência. Do ponto de vista psicanalítico, muitas mulheres vivem sob uma tensão permanente entre desempenho e reconhecimento simbólico — um excesso que, quando não encontra escuta, frequentemente retorna na forma de sofrimento psíquico.
É nesse ponto que a segurança psicológica se torna estruturante. Ambientes em que há espaço para a fala, para o erro e para a divergência criam condições para que o sujeito possa existir sem recorrer ao sintoma como única forma de expressão. Ao trazer os riscos psicossociais para o centro da gestão organizacional, a NR‑01 inaugura uma oportunidade histórica: reconhecer que o cuidado com a saúde mental não é apenas uma política de bem‑estar, mas um componente estratégico da sustentabilidade das empresas.
A proximidade do Dia Internacional da Mulher nos convida a ampliar essa reflexão. Celebrar a presença feminina nas organizações não pode se limitar a discursos simbólicos. Implica construir ambientes de trabalho onde mulheres possam exercer plenamente sua voz, sua inteligência e sua liderança, sem carregar sozinhas o peso emocional das estruturas organizacionais. Onde há segurança psicológica, há também mais criatividade, colaboração e futuro.
Sirley Carvalho é psicanalista e consultora em gestão de pessoas, com atuação em liderança, saúde mental e riscos psicossociais nas organizações. Fundadora da Merhcado Gestão de Carreira, desenvolve projetos voltados à segurança psicológica, à implementação de práticas relacionadas à NR‑01 e ao desenvolvimento de lideranças conscientes. É certificada em Segurança Psicológica pela The Fearless Organization, organização internacional dedicada à pesquisa e difusão do tema nas empresas.
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