Manhã de sábado na feira… Na mesa de sempre, na banca da Manu de Gonçalino, esperando os parceiros pra começar o forró, o sanfoneiro Tonico, paraibano da capital do forró, Campina Grande. Já, já, chegam o sergipano Raimundinho de Conceição, com sua zabumba, e o maranhense Paulão do Zé Raimundo, com o triângulo.
Outra mesa começa a ser ocupada pela turma de sempre. Essa, está posta a uma distância estratégica, que permite curtir o forró sem que o inescapável bate-boca atrapalhe os músicos ou os que estão ali para matar a saudade de Gonzagão, do luar do serão e saborear o queijo coalho na brasa acompanhado de uma boa e comportada pinga…
Neste sábado, o assunto promete mais emoções. Vai do futebol para a política…
Os contricantes vão chegando. O primeiro é o goiano. Para abrir os trabalhos, pede um empadão. O paulista chega quase junto. Celular na mão, já vai gritando: o loco, meu!! O Bolsonaro foi preso! E anunciando, assim, o assunto da manhã de sábado.
Boca cheia com o pedaço do empadão, o goiano se espanta e quase engasga:
– Rensga! Já não estava preso?
Bá! Estava preso em casa, aparta o gaúcho recém-chegado, puxando a cadeira e acomodando a palha na orelha pra picar o crioulo.
O paraense chega com a indispensável cuia de açaí e não se mostra tão surpreso como os outros.
Égua, diz ele, o ministro mandou prender o preso. Nessa altura, chega o mineiro que, antes, tinha cochichado alguma coisa no ouvido do sanfoneiro Tonico. A feira, agora, ouve Acorda Amor, do Chico Buarque, em ritmo de baião… O mineiro aponta o polegar na direção do sanfoneiro.
Acorda, amor
Não é mais pesadelo nada
Tem gente já no vão de escada
Fazendo confusão, que aflição
São os homens
E eu aqui parado de pijama
Eu não gosto de passar vexame
Tem base um trem desse, diz o mineiro. Olha aqui, mostrando a tela do celular. O homem meteu um ferro de solda na tornozeleira eletrônica…
A essa altura estão, todos, em volta da telinha… Arre, e quer que acredite que foi só curiosidade, diz o cearense Zé Wilson, que tinha ido à feira buscar uma buchada de bode…
E eu acredito em Papai Noel, atalhou o mineiro. Uai, sô! Vocês podem me chamar de desconfiado… Mas quando eu vi essa notícia, dei uma passada no setor de embaixadas. Afinal, depois daqueles dois dias na embaixada da Hungria no ano passado…
Na dos Estados Unidos tinha uma movimentaçãozinha diferente pra um domingo, mas como o prédio está sendo reformado… podem ser operários trabalhando… Na embaixada da Argentina, tudo quieto…
Bah, mas é bem capaz que estivessem tramando alguma coisa, tchê.
Égua, gaúcho, você não viu o Flávio Bolsonaro convocando os fiéis (bolsonaristas, claro, nós os fiéis corintianos) pra uma vigília na porta da casa do pai dele?
Eita, diz o goiano, muita gente reunida, tornozeleira rompida, embaixada amiga a menos de 10 km… Tem cenário melhor pra um cara sair lépido e fagueiro, boné e óculos escuros, entrar num carro e só voltar a ser visto na hora do breakfast já em território estrangeiro, embora ainda no cerrado brasiliense…???
Nesse momento, o Nilson, o garçom, estava entregando a buchada do Zé Wilson e não se conteve… E vocês viram, hoje é 22, dizem que escolheram a data para desmoralizar o número do partido do Bolsonaro. O PL é 22… Tem base esse trem???
Pois é… conversa de feira, pessoal. Mas não custa lembrar o ditado que, dizem as lendas, vem lá da Idade Média, quando os gatos eram acusados de afinidade com bruxas e se dizia que a curiosidade matou o gato.
Desta vez a curiosidade pode ter prendido o fujão…
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Foto da Capa: SEAP / Divulgação

