Os psiquiatras são para os brancos.
Vamos tirar o Jimmy daqui!
Djinns[1], Seynabou Sonko
Raça e saúde mental. Parece mentira, mas faz tão pouco tempo que se pensa seriamente nessa intersecção. Aliás, faz pouquíssimo que nos dedicamos a outras intersecções tão fundamentais para ler o mundo como quem realmente participa dele.
Em espaços formativos, tenho dito que nossa amada clínica psicanalítica há de ser interseccional, quer dizer, há de doravante considerar – nas linhas de repetição nas quais escutamos o sofrimento psíquico –, o gênero, a raça, a sexualidade e as deficiências. Evidentemente, parte do assunto é também não se escamotear das diferenças de classe social.
É sobre isso. Ou então, seguiremos fingindo que os velhos manuais, tão dedicados aos homens cis, hétero e brancos – ainda que sem o dizer – estão obrigados a contemplar os horizontes que vêm se abrindo na contemporaneidade. Assim, o corpo negro, trans e/ou com deficiência seguirá, literalmente, neutralizado e subsumido em uma discursividade pretensamente isenta. E à mulher, ainda que desracializada, dessexualizada etc., deixaremos o de sempre: atribuições indiscriminadas de diagnósticos de histeria, melancolia e demais vícios psicopatológicos. Não! Já não cabe mais essa preguiça intelectual.
Sei que amantes de uma psicanálise mais formalizada em matemas e aforismos podem ter certa dificuldade com o que digo, mas aí valem alguns lembretes. O primeiro deles vem do velho mestre. Freud dizia com razão que a psicanálise não era uma cosmovisão. Por isso, sempre se serviu de ciências acessórias para fundamentar o edifício psicanalítico. Pois, diferente daquela bobagem de “Freud explica”, não temos – ainda bem! – bola de cristal e nem solução para tudo. Também vale lembrar que já lidamos com desafios e resistências inerentes ao campo de estudo nas formalizações das psicoses, por exemplo. E, nem por isso, pensamos em nos calar como psicanalistas, ainda que os tratamentos dessas sejam, muitas vezes, o tratamento possível. Então, não venham me dizer que porque leio bell hooks ou Audre Lorde, deixei de ser psicanalista. Ou ainda, que não estou atenta à clínica só porque ademais estou atenta ao campo da cultura. Campo sempre poroso e, ao mesmo tempo, penetrante. Grande Outro, para os lacanianos, campo da fala e da linguagem. E, é claro, de certos discursos. Me agarro nisso e naquele mantra que tenho repetido: o divã não é uma ilha.
Divido com quem chegou até aqui uma inquietação que precisamos sustentar cada vez mais. Por que quando alguém relata um caso diz: um homem, ou um homem gay, uma mulher ou uma mulher negra? Por que o adendo vem apenas pelo laço com a minoria, com a opressão? Vou além: o quanto esse adendo – importante em todos os casos – não vem, por vezes, como ressalva à própria categoria evocada? É um homem, ainda que gay. Mas é trans. Apesar de que é deficiente. É uma mulher, mas é negra. Por isso, o poema de Sojourner Truth ainda é tão potente. E não sou uma mulher?
bell hooks escreveu, certa vez, que por mais que visse no espelho “uma mulher” e não “uma mulher negra” enquanto lavava o rosto pelas manhãs, a raça a estava esperando.
Assim que eu saio pela porta, a raça está esperando, como um caçador vigilante pronto para me agarrar e me manter imóvel, pronto para lembrar que a escravidão não está apenas no passado, mas paira no aqui agora, pronta para encurralar, segurar e prender. Não é de admirar que eu queira passar a maior parte da minha vida dentro de casa, no santuário do lar, onde não há grilhões nem lembretes constantes de que não há lugar livre de raça (hooks, 2022, p. 279-280)[2].
Podemos, como psicanalistas, ignorar isso que “paira no aqui agora”? E, onde paira? Onde pára? Não é no muro e nas pontes da linguagem? No discurso? E esses muros e pontes não serão feitos de corpos?
Hoje faz três anos que perdi minha avó. Apenas uns três anos antes de ela falecer, finalmente entendi um pouco mais as crises de pânico que tinha ao sair na rua. Ela sabia o que a aguardava da porta para fora: o racismo. E era muito difícil enfrentar, então, ela estava há uns 25 anos, praticamente, ancorada em casa. Não posso deixar de comparar com uma internação domiciliar.
A saúde mental, a psicologia, a psicanálise e a psiquiatria têm limites muito estreitos se não consideram a interseccionalidade. Veremos por quanto tempo esse delírio de neutralidade se mantém.
Notas:
[1] Tradução minha de trecho de romance editado em espanhol pela autora senegalesa: Sonko, Seynabou. Djinns. Sigilo: Buenos Aires, 2024.
[2] hooks, bell. Escrever além da raça: teoria e prática. São Paulo: Elefante, 2022.
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Todos os textos de Priscilla Machado de Souza estão AQUI. Foto da Capa: Seynabou Sonko / Divulgação

