O trabalho criativo carrega uma natureza peculiar: é subjetivo, imensurável, não existe certo ou errado absoluto. Existe interpretação. E isso gera tantos medos — medo da exposição, medo do julgamento, medo do fracasso, medo do sucesso, medo de errar. Estar sujeito ao olhar do outro, saber que o resultado do nosso trabalho não pode ser medido com precisão e está completamente fora do nosso controle — tudo isso gera um desconforto que precisamos vencer diariamente.
Além de escrever, tenho uma agência de marketing para redes sociais. Não amo as redes sociais em si, problematizo-as em muitos aspectos, mas amo poder exercer minhas múltiplas versões: neste trabalho, crio artes digitais, filmo e edito vídeos, tiro fotos, escrevo, desenvolvo estratégias e, às vezes, até construo a identidade visual das marcas. É um trabalho de criação: tirar ideias da cabeça, executá-las, jogá-las no mundo. No fluxo desse processo, os clientes aprovam cada arte, cada texto, cada estratégia, afinal, sou a ponte entre o que eles idealizam e o que a marca vai representar. Alguns clientes confiam cegamente em mim e apenas aprovam tudo sem ver. Outros são mais apegados às próprias ideias e gostam de lapidar meu trabalho — o que não me importo, faz parte. Mas aqui está o ponto central: neste trabalho com clientes, existe uma rede de segurança. Tiro o que está dentro de mim, mas, antes de expor ao mundo, alguém valida. Isso me dá confiança de que estou traduzindo as ideias com clareza e propósito.
Sou uma escritora em início de carreira — tenho dois livros infantis em contrato com editoras, mas que ainda não foram publicados, já escrevi muitos poemas que não saíram do meu arquivo e estou trabalhando em dois livros no momento. Não tenho a vivência da reação do público, não sei ainda como é ver meu nome impresso em uma capa e esperar que alguém, do outro lado, se importe. Esta coluna tem sido meu primeiro exercício de criação para o mundo sem essa rede de segurança. Todo trabalho artístico individual, que não passa por filtro de cliente ou curadoria externa, me deixa extremamente vulnerável. Não porque duvide da minha habilidade — sei que sou competente. Mas porque é uma exposição enorme ter meus pensamentos e dúvidas escancarados para o outro opinar. E o pior, para mim, é quando não opinam. O silêncio corrói mais do que qualquer crítica. Porque a crítica, pelo menos, é um espelho. O silêncio é apenas o eco da minha própria voz, voltando vazio.
Mas tento sempre me lembrar de que o trabalho artístico, na verdade, se conclui quando aceitamos que ele chegou ao fim e precisa ir para o mundo, e não depois disso. Existe um momento — nem sempre claro, nem sempre confortável — em que precisamos soltar. Poderia mexer mais um pouco, ajustar aquela frase, mudar aquela palavra, rever mais uma vez as vírgulas. Mas chega uma hora que precisamos encerrar aquele assunto. A obra não nos pertence mais quando está pronta; ela precisa existir fora de nós, encontrar quem vai encontrar, ressoar em quem vai ressoar. E, então, o que as pessoas vão achar não deveria importar. Digo “não deveria” porque sei que importa — somos humanos, queremos validação, tememos o desconforto da crítica e o vazio do silêncio.
Talvez o trabalho criativo seja isso: um exercício constante de coragem. Continuamos criando não apesar do medo, mas com ele. Carregamos essa vulnerabilidade como parte do ofício (inclusive as melhores criações vêm desse lugar), sabendo que, cada vez que colocamos algo nosso no mundo, nos arriscamos a ser ignorados, incompreendidos ou, talvez, pior ainda, invisíveis.
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Foto da Capa: Canva

