Certa vez, o grande Norberto Bobbio (1909-1994) foi com sua neta ao banco resolver algo e, lá, enquanto esperava ser atendido, Bobbio começou a conversar com um senhor de idade aproximada à sua (mais de 90 anos!), conversa tão prolongada e animada que sua neta, ao sair, perguntou-lhe se era um velho amigo. “Não! Aliás, esqueci de perguntar o nome dele! Mas é que faz muito tempo que não converso com alguém sobre os anos 30!” Bobbio lamentava estar atingindo idade tão avançada e observou, em seu magnífico livro “O tempo da memória (De senectute)”, que o pior de uma longa velhice era ver o mundo “desaparecer” antes que você mesmo desaparecesse: todos os amigos que partilharam com ele os grandes acontecimentos do século (o Fascismo, a Resistência, a reconstrução da Europa) já tinham partido; quase todos os lugares que ele frequentara na juventude e na maturidade tinham sido tragados pelas transformações urbanas e, para ele, conversar com um jovem que conhece o passado do século XX por meio dos livros e documentos, era muito diferente de conversar com uma pessoa que o tinha vivido. Aliás, o falecido jornalista e escritor Paulo Francis (em “O afeto que se encerra”) também disse algo parecido: só quem é da mesma geração pode compreender a atmosfera de uma época, e a experiência vivida não pode ser inteiramente “transmitida” aos que não a viveram.
Conversar com certos jovens, hoje, me deixa às vezes me sentindo ridículo e humilhado: não tenho habilidades digitais, vivi uma época sem celular e sem internet, as músicas de que gosto são ‘démodées’, e pra fazer uma prosaica ‘live‘ para falar sobre temas de meu interesse tenho que recorrer — mais uma vez! — ao jovem daqui de casa, meu filho, que já sai do quarto (onde mora com a porta fechada e um headphone no ouvido!) com a inscrição na testa “Você é muito burro!”… O problema, pois, da velhice não é só, como queria Bobbio, o desaparecimento do mundo, nem tampouco a certeza de que os jovens (os recém-chegados a este mesmo mundo) introduzirão algo “novo”, como no vaticínio de H. Arendt: os jovens também promovem o desaparecimento do que existia, e o passado não exercendo mais nenhum poder de imantação ou autoridade, nós, mais velhos, ficamos com a desagradável sensação de vagar num mundo às vezes estranho ou hostil, no qual nos tornamos cada vez mais… “burros”!
Bobbio, proprietário de uma erudição assombrosa sobre a Antiguidade Latina, dizia, parafraseando Sêneca, que “só quem não conhece a velhice pode desejá-la!”.
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