A presente reflexão é devedora de interlocução com o doutorando Heitor Graton Roman, vinculado a nosso programa de doutoramento em Psicologia na UFRN. Sua argúcia e erudição muito contribuíram para a clarificação de ideias que me vêm acompanhando há tempos.
Venho discutindo com meus formandos e colegas o quanto é pouco precisa a ideia segundo a qual o objetivo último da ciência seria a “verdade”, que alguns inclusive ousam chamar de “verdade dos fatos”. Eu costumo retrucar, provocativamente, que a verdade seria o objetivo último das religiões, e não da ciência. Isso costuma atrair, em minha direção, críticas no sentido de que eu estaria impregnado de certa postura de “relativismo pós-moderno”, tão equivocada quanto contraproducente.
Os últimos acontecimentos histórico-políticos neste país, com a onda de opiniões infundadas sobre o caráter plano da Terra e a eficácia de determinados compostos, como o fosfato de cloroquina, para abordagem medicamentosa da COVID-19, trouxeram à luz do debate social de ideias a questão do valor e força do conhecimento científico, que estaria sendo vilipendiado por propostas falsas, não condizentes, justamente, com a “verdade dos fatos”, com o conhecimento científico. Nessa luta, bastante meritória, aliás, que se estabeleceu contra as chamadas “fake news” e mesmo “fake information”, o caráter de “truth information”, de informação verdadeira e científica, apareceu como o caminho natural para combater essa barbárie informacional. O conhecimento científico seria, efetivamente, vetor da verdade?
Voltemos, no curso da história relativamente recente, ao evento que marca o surgimento do que foi a primeira vacina da história da medicina e da imunologia – a vacina contra a varíola, mérito do trabalho duro e meticuloso do médico inglês Edward Jenner, por volta de 1796. Ao observar, nessa época, dados epidemiológicos da população de uma pequena cidade inglesa, Dr. Jenner teve sua atenção atraída para o fato de que a incidência de varíola, naquela localidade, estava estranhamente abaixo do que se observava no restante da Inglaterra. Por quê?
Depois de muitas idas e vindas, que de fato marcam a saga dos cientistas em vários domínios, Dr. Jenner percebeu que:
1. Aquela era uma cidade produtora de leite bovino na região;
2. As trabalhadoras ordenhadoras das vacas leiteiras mostravam-se praticamente imunes à epidemia de varíola que então grassava;
3. Estas trabalhadoras apresentavam, nas mãos com as quais ordenhavam as vacas, pequenas pústulas, feridas purulentas semelhantes a feridas que as vacas apresentavam em seus úberes;
4. Essas feridas eram bastante parecidas com as feridas apresentadas por doentes acometidos por varíola, porém menos disseminadas pelo corpo.
Dr. Jenner supôs que aquelas feridas representavam uma forma de varíola contraída pela vaca, e que era atenuada por esses animais; ao repassar a humanos-ordenhadores essa “varíola da vaca”, aqueles humanos desenvolviam uma “varíola atenuada”, que impedia o desenvolvimento da varíola humana mais perigosa e letal. Como verificar isso? Ora, muito simples (mesmo que, com a démarche seguida, tenha atraído a ira social de então, para a qual tornou-se mais um “bruxo demoníaco” e outros epítetos mais agressivos): bastava coletar a secreção purulenta no úbere das vacas, provocar escoriações leves na pele de assistentes-voluntários da equipe, infectar essas escoriações com o pus coletado dos úberes das vacas e verificar se os voluntários se mostrariam efetivamente protegidos do adoecimento grave com varíola convencional.
Bingo! O procedimento funcionou, Dr. Jenner entrou para a história, não sem antes publicar, na época, que a secreção purulenta havia demonstrado eficácia para a prevenção de formas agressivas e letais de varíola. Verdade? SIM, e, ao mesmo tempo… NÃO. A formulação feita por Dr. Jenner seria, ulteriormente, refinada em termos mais precisos pela imunologia que haveria de se desenvolver. Nesse sentido, Dr. Jenner teria atingido um patamar de verdade provisória, absolutamente em sintonia com a massa crítica de conhecimentos da época, mas passível de todo um refinamento que tornaria aquelas formulações originais toscas, imprecisas.
Mas o Dr. Jenner não seria o primeiro, e nem o último dentre os cientistas, a verificar que uma verdade prévia (mais adequadamente denominada de hipótese explicativa) poderia vir a passar por processo de depuração rumo a uma verdade mais plausível. Os físicos à época de Isaac Newton haviam estabelecido o caráter imaterial da luz, a qual, portanto, não estaria submetida à atração de campos gravitacionais, até que Albert Einstein trouxe novas nuances a essa afirmação “verdadeira”, ao propor teoria que explicaria como um feixe de luz, na vizinhança de campo magnético, sofreria deflexão, como se tal feixe estivesse sendo atraído por campo gravitacional.
Einstein propôs que a luz seria composta por “pacotes” de energia chamados fótons, contrariou a física clássica, que tratava a luz como onda eletromagnética (imaterial), e lançou as bases para a física quântica, que sucedeu a física newtoniana, constitutiva do paradigma até então dominante. Poder-se-ia dizer que a física newtoniana tornou-se “menos verdadeira”, ou até “falsa”, frente ao advento da física quântica? Não podemos fazer essa afirmação grosseira. Como bem estabeleceu outro físico brilhante, Niels Börh: “duas grandes verdades podem se opor e ainda assim persistirem e conviverem; as pequenas verdades é que não suportam convivência, na medida em que uma necessariamente invalida a outra”.
A chamada verdade científica é sempre e necessariamente provisória. Trata-se, portanto, muito mais de uma hipótese do que um dado. A hipótese é a construção narrativo-explicativa de determinado fenômeno que recortamos para observar; nesse sentido, tal narrativa explicativa pode ter graus variados de pertinência e, portanto, verossimilhança, mas a verdade última jamais estará ao alcance do cientista. Este é um privilégio do crente-religioso, e não do cientista.
Finalmente, a chamada verdade dos fatos, na base do mantra clássico “contra fatos não há argumentos”, tão caro aos cientistas que se orgulham de surfar a empiria, os fatos, os dados. Ora, os dados não “falam” por si! O conhecimento que emana da observação dos fatos é, muitas vezes, modelos matemáticos alimentados pelas chamadas variáveis independentes, elementos causais das variáveis dependentes, com baixa probabilidade (matematicamente calculada) de que este vínculo causal seja devido ao acaso (p < 0,05, ou mesmo p< 0,01). Os dados não falam – NÓS elaboramos modelos explicativos a partir do que observamos, e estas observações jamais serão a transposição perfeita de real em nosso conhecimento.
Propositadamente parti de reflexões no domínio da Física, por conta de seu “prestígio epistêmico” no âmbito das ciências. Se, justamente, tais alegações de verossimilhança em substituição ao conceito de verdade são aceitáveis para a Física, o que dizer das ciências “soft”? Das ciências humanas e sociais, para as quais a construção interpretativa assume lugar central – para certa indignação, diga-se, dos cientistas “duros e puros”…
Como destaca Engels, na obra “Anti-Düring”, publicada em 1878 (grato, Heitor, por esta citação): “o progredir dos achados empíricos nas diferentes disciplinas leva as tradicionais verdades definitivas a serem gradativamente superadas, tornando-se cada vez mais raras, até mesmo na matemática”.
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O insumo da ciência não é a verdade, e sim o rigor e o desapego às ideias.
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Foto da Capa: Freepik

