Viver a morte nunca é fácil, mesmo quando a gente sabe que a pessoa que se foi “descansou”. A dor de quem fica, a saudade e a falta ficam. O vazio que precisará ser preenchido cada vez que aquela presença for evocada sempre trará junto as emoções que aquela pessoa nos causava e as memórias que partilhamos com ela.
Essa semana fomos pegos pela notícia da morte da Preta Gil, com apenas 50 anos, e sua partida fez o Brasil, chocado, chorar essa perda. Mesmo vinda de uma família famosa e querida pelos brasileiros, de Gilberto Gil, um ícone da música no país e já sendo uma artista conhecida e atuante em diversas áreas, Preta Gil se transformou num farol país afora quando, recebido o diagnóstico de câncer colorretal, divulgou seu diagnóstico com transparência e, após a recidiva, passou a lidar com a perspectiva da morte e da finitude sem renunciar à sua alegria de viver.
Como a própria Preta Gil declarou: “A energia da morte é de vida também. A gente só morre porque está vivo”. Com essa declaração, eu consigo fazer duas leituras.
A primeira é que a morte está presente na natureza de qualquer ser vivo. É natural e faz parte do ciclo de vida. Como declarou Ana Claudia Quintana Arantes, “a gente vive até morrer”. Mesmo que exista gente pesquisando para prolongar ao máximo a vida dos humanos ou até mesmo a própria imortalidade. O que temos é que fazemos parte da Natureza. Nascemos, crescemos, reproduzimos, envelhecemos, morremos. Até a morte chegar, vivemos. O como queremos fazer isso, como preencher essa linha da vida, é a nossa grande escolha. Nisso, a Preta foi luz de vida, farol de alegria, mesmo tendo a morte logo ali no horizonte.
A segunda é de que a vida não tem data de validade. Ela atinge a todos, e em qualquer idade. A Preta Gil tinha 50 anos. A Juliana Marins, falecida na queda durante um passeio num vulcão na Indonésia, 24. Nesta terça, recebi a notícia da morte do Ozzy Osbourne, líder do Black Sabbath, aos 76 anos. Você deverá lembrar de alguém que morreu mais jovem ou mais velho do que esses que citei. Desses três, aprendo a intensidade de vida que colocaram em suas vidas, a coragem e a curiosidade que foram em busca de seus sonhos e encararam seus medos. O Ozzy, diga-se de passagem, dizia que só começou a entender um pouco a vida quando já estava descendo ladeira abaixo… talvez esse seja também um outro aprendizado.
Outro aspecto é que a Preta foi exemplo do quanto a rede de proteção é capaz de nos cuidar em momentos cruciais. Ela, que foi ponto de conexão entre tanta gente ao longo de sua vida, nesse momento final recebeu o colo que precisava daquelas amizades e afetos que construiu. Morreu nos braços de quem a amava. Quer forma mais aconchegante de partir?
Apesar disso, quando foi traída e abandonada pelo seu marido durante seu tratamento, ela entrou nas estatísticas de que sete em cada dez homens não se mantêm ao lado de suas parceiras quando estas atravessam o tratamento de algum tipo de câncer. Algo a refletir sobre o quanto nós, mulheres, sempre estamos programadas a cuidar, estar disponíveis, colocar o parceiro como prioridade, mas se o contrário ocorre, a recíproca não é verdadeira.
Outra lição foi de que o luto também é vivenciado por quem irá morrer, e aqui estamos falando no caso de pessoas com doenças crônico-degenerativas (Alzheimer e demências, ELA, Parkinson, por exemplo) ou já em estado avançado de câncer, como foi o caso da Preta Gil, quando relatou em entrevistas o medo de partir e não ver sua neta crescer, por exemplo. Sem sua coragem de falar abertamente sobre esse medo, e outros que provavelmente a envolviam, o sofrimento nessa fase da vida seria maior, com certeza.
Aliás, em toda essa trajetória, ela conjugou coragem com vulnerabilidade, demonstrando sua força ao expor suas fragilidades, medos, e essa é uma lição que podemos levar pra vida, para a forma como nos relacionamos. A força parte do coração, do sentimento. Não é fácil. Algo a ser perseguido na nossa sociedade em que a força é ser impenetrável. Talvez nem seja algo para o qual devemos mostrar a todos, mas com certeza é importante ter essa capacidade pronta para acessar.
Uma outra lição bonita foi de Gilberto Gil. Mesmo sabendo que a morte pode atingir a qualquer um em qualquer idade, entendemos que um pai e uma mãe enterrarem uma filha não é a ordem natural. Gil, em um dos momentos de maior gravidade da doença, conversou com Preta, aconselhando-a a partir e aceitar se achasse que estava insuportável sua condição, libertando-se. Um gesto de desprendimento, que não é explicado apenas pelo amor, mas por tremenda espiritualidade, fé e humildade perante o Divino.
É difícil a gente conversar sobre o assunto morte em família. No geral, quando ele vem à baila, alguém comenta que “tá chamando ela” e corta o tema. Por isso, exemplos como o da Preta Gil nos iluminam e nos fazem tão bem. A gente se permite conversar a respeito, falar sobre com amigos, familiares; afetos com quem, talvez, não seria comum conseguir tratar sobre a finitude e as escolhas que faríamos perante ela.
A Preta Gil pediu para ser velada no Theatro Municipal do Rio de Janeiro e que seu cortejo fosse feito com trio elétrico, nada diferente da sua personalidade exuberante, fora dos padrões e de quem liderou lutas e um dos maiores blocos de carnaval da cidade, o Bloco da Preta. Você já pensou como gostaria que fosse o seu velório? E já contou sobre isso?
Dias antes da minha mãe falecer, os médicos nos disseram que ela já não teria mais muito tempo e perguntaram pra nós, seus filhos, se queríamos que fossem colocadas sondas e outros equipamentos disponíveis na UTI para prolongamento da sua vida. A gente se olhou e se perguntou qual seria a escolha da mãe, pois ela nunca havia nos declarado nada a respeito. Escolhemos pela alternativa que acreditamos que dava mais dignidade, amor e presença dela conosco em seus últimos dias.
Eu sei que, diante da morte, a gente se vê fazendo escolhas que nos remetem a como encaramos a vida e aos valores que nos conectam a ela. Tempos atrás, eu infartei e revi muito do que não fazia mais sentido na minha vida com base nesses valores. Também, a partir daí, comecei a anunciar para as filhas as minhas escolhas de final de vida, se inconsciente estivesse, o local das minhas senhas e como quero o meu velório. Quero viver, viver bem até morrer e deixar solução em vez de problemas.
A gente não tem controle sobre quando vai morrer, mas se colocarmos na vida a intenção de alegria, afeto e coragem, como aprendemos com a Preta Gil, ela terá sido linda! Boa sorte pra nós!
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Foto da Capa: Reprodução do Instagram

