Original publicado em 02/09/2025
Sou de casa, sempre fui, e gosto de mexer e remexer no espaço onde moro. Arrumar, limpar, desarrumar, arrumar de novo. Observar as crianças tirando tudo do lugar na maior farra e, depois das brincadeiras, colocar novamente nos lugares, eliminar o que já não serve e por aí vai. Na verdade, o que mais me dá prazer é receber amigos para uma confraternização, uma boa conversa, encontros descontraídos, uma festinha, um brinde. Aí me dedico para preparar a recepção com tranquilidade e curtir cada momento. Foi com esse sentimento que me deparei com um texto de Carlos Drummond de Andrade que fala justamente sobre a casa, seus espaços e seus significados. A identificação foi imediata. Vamos ao que diz o poeta em “Casa Arrumada”!
“Arrume a casa todos os dias… Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo para viver nela… E reconhecer nela o seu lugar.”
“Casa arrumada”, escreve o poeta, é “um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz”. Ele segue: “mas casa, pra mim, tem que ser casa e não centro cirúrgico, um cenário de novela. Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas… Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo: aqui tem vida… Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras e os enfeites brincam de trocar de lugar. Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha. Sofá sem mancha? Tapete sem fio puxado? Mesa sem marca de copo? Tá na cara que é casa sem festa. E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança”. Drummond mexe em muitos dos nossos sentimentos e comportamentos relacionados ao lugar onde moramos. Casa com vida para ele “tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde, tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante, passaporte e vela de aniversário, tudo junto”. Resumindo, o poeta diz que é aquela casa em que a gente entra e se sente bem-vinda, de portas abertas para os amigos, os filhos, os netos, os vizinhos… “E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora do dia.”
O ponto fundamental é reconhecer na casa o nosso lugar, nosso refúgio em todos os aspectos, dos dias tranquilos aos dias difíceis.
Somo ao texto de Drummond uma questão que é essencial para o meu bem-estar: acessibilidade. Desde que comecei a conviver com arquitetos sensíveis, com olhares abrangentes, acolhedores e inclusivos, essa questão ganhou uma importância incrível na minha vida. Foi quando me dei conta de que eu poderia ter uma casa acessível para o meu tamanho – uma pessoa adulta com 1,10 m. Não uma casa de boneca, como muitos já me perguntaram ou afirmaram que só podia ser assim, mas uma casa democrática e acolhedora para pessoas de tamanhos e condições diversas. Afinal, as diferenças existem, fazem parte do nosso cotidiano e precisam ser respeitadas. E isso foi e é libertador!
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Foto da Capa: Freepik

