A arte – música, literatura, teatro, cinema, dança, pintura – sempre me acompanhou e segue acompanhando, passo a passo. Sacode minhas angústias, estimula reflexões, me acalma, me tira da apatia, me faz cantar, dançar, chorar, rir, consola e embala. Assim fui firmando meus pés no chão desde o início. Às vezes instável e insegura diante dos tantos desafios de uma trajetória atravessada pela discriminação, mas sem jamais pensar em desistir. Como escreveu o artista visual Leandro Selister em um post no Facebook no dia 29 de outubro, entendo que “fazer arte não é escapar da violência. É não permitir que ela endureça o olhar”. E a 71ª Feira do Livro de Porto Alegre está aí para que a gente ande de mãos dadas com os livros, em plena Praça da Alfândega, até o dia 16 de novembro.
Indiscutivelmente, de mãos dadas com a arte, a travessia é mais feliz.
Então:
– Inesperadamente, cantei “Gothan City”, de Jards Macalé e Capinam, dois maravilhosos malditos que desafiavam o coro dos contentes e alertavam: “Cuidado, há um morcego na porta principal / Cuidado, há um abismo na porta principal”.
– Instintivamente, descobri uma coragem que desconhecia e a possibilidade de evitar a porta principal acendeu. Há muitas outras portas possíveis que possibilitam passagens e nos tiram do caminho e da visão do “morcego”. Assim como pular por cima das pedras para não desistir do caminho libertador. Um caminho que aponte novos horizontes, como apontou. Alguns plenos de sol.
– Internamente, lembrei o poema de Carlos Drummond de Andrade que diz: “No meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho”. Foram muitas as pedras encontradas no caminho. Desviei das possíveis. Outras tantas me derrubaram, mas não chegaram a ferir minha alma e enfraquecer minha coragem.
– E, quando vi Chico Buarque e Gilberto Gil cantando na rua para uma multidão – “Pai / Afasta de mim esse cálice / Pai / Afasta de mim esse cálice / De vinho tinto de sangue” – entendi que desistir é uma palavra que nunca coube no meu dicionário.
– Então, naturalmente, cantei “Alegria, Alegria” de Caetano Veloso: “Eu vou / Por que não, por que não? / Por que não, por que não?”.
– Assim fui. Fomos porque eu não estava sozinha. Descortinamos novos horizontes. Não abrimos mão das nossas buscas, das nossas crenças, da nossa luta, da nossa humanidade e da democracia.
A arte me ajudou a passar pelos tempos obscuros e devastadores da cruel ditadura que vivíamos no Brasil, que a comovente e censurada canção de Chico e Gil “Cálice”, repito, traduz tão bem: “Pai / Afasta de mim este cálice / De vinho tinto de sangue”. A arte me estimulou a desvendar e pisar nos caminhos libertários possíveis. E é por essas descobertas, pelas verdades que foram ocultadas por tanto tempo e vieram à tona para fazer justiça, que é necessário festejar o fato de ainda estarmos aqui. Festejar a nossa arte tão resistente, os nossos artistas que não se dobram, que se reinventam quando necessário e levam para as telas, para os palcos, para as ruas tantas histórias, tantas lutas e tantas vozes que hoje ecoam lindamente. Vozes diversas que nos representaram e representam em todos os momentos da nossa história.
Um país tão diverso, de riqueza ambiental, cultural e artística admiráveis, não pode abrir mão das origens do seu povo e precisa cada vez mais respeitar a mistura de raças que nos constitui.
Todos os textos de Lelei Teixeira estão AQUI.
Foto da Capa: Secom / Prefeitura de Porto Alegre

