Não sei explicar o que me acontece quando ouço aquela música. Parece uma dor entrelaçada à saudade do que eu nunca vivi e, ao mesmo tempo, uma sensação de esperança misturada a um medo repentino do futuro. Às vezes sinto uma vontade imensa de gritar; em outras, de chorar. No entanto, o que costumo fazer é apenas desfrutar de cada acorde com a atenção de quem aprecia uma verdadeira obra de arte e tenta compreender os efeitos que ela provoca.
Em certos momentos, atrevo-me a cantarolar alguns de seus versos, misturando minha voz desafinada à do cantor. São nesses instantes que me resta apenas esperar que nenhum vizinho se incomode com quem nunca se reconheceu no ofício de cantar, mas insiste em extravasar, com veemência, os anseios da alma. Então, eu canto cada vez mais alto, como se não houvesse mais ninguém no mundo. E, quando a última nota se dissolve, volto a ficar quieta, desejando que, mesmo por acaso, aquela melodia tenha invadido os ouvidos alheios da mesma forma como adentrou os meus.
Seja na voz de Milton Nascimento, de Flávio Venturini ou de qualquer outro intérprete que ouse cantá-la, Clube da Esquina nº 2 é uma das poucas canções capazes de me levar para longe até de mim mesma. Esse poder não vem apenas da melodia, nem tampouco somente da letra, mas da coragem de tratar com suavidade um período da história em que tudo era pesado e triste. Ou talvez por me lembrar de que os “sonhos não envelhecem”, embora muitos dos jovens contemporâneos à época em que a música foi composta não tenham sequer chegado perto de realizá-los.
A canção que leva o mesmo nome do grupo que a interpreta nasceu em pleno auge da repressão — um tempo em que eu ainda nem existia. Se não fosse a arte cumprindo, com maestria, seu papel de resistência, talvez eu fosse hoje apenas mais uma entre tantos que acreditam que nada daquilo realmente aconteceu. Devo à música, ao cinema e à literatura o despertar da inércia de quem não aprendeu sobre o tema na escola e cresceu ouvindo os mais velhos dizerem que “naquele tempo era bom”.
A composição de Milton Nascimento, Lô Borges e Márcio Borges é a prova viva de que a dor pode se converter em beleza, que a violência pode se transformar em poesia e que até o medo, quando encontra a arte, ganha voz em forma de verso. Lembro-me de cantar “E lá se vai mais um dia” em cada fim de tarde durante o isolamento da Covid, sem imaginar que a letra da música que eu tanto amava nascia também de um tempo em que sair de casa significava arriscar a própria vida. Havia algo reconfortante naquele refrão melancólico, um acalento em meio ao pânico mundial.
A falta de perspectiva e a sensação de impotência diante do inevitável fizeram com que, durante aqueles meses de confinamento, muitas pessoas buscassem alívio na arte. No meu caso, além da música, dos filmes e das séries, encontrei na leitura e na escrita uma forma de escapar da realidade. Foi nesse período de incertezas que comecei a escrever um livro que tem a ditadura militar como pano de fundo e o título inspirado em outra canção do Clube da Esquina.
Meu romance Nada Será Como Antes foi escrito em 2021 e lançado em 2023. Desde então, nunca deixei de me aprofundar no tema. Minhas pesquisas ultrapassaram os limites dos livros de história e encontraram na ficção novas maneiras de compreender o passado. Autores como Henrique Schneider, Joselma Noal, Marcelo Rubens Paiva e tantos outros mostraram-me, por meio de seus personagens, as dores de quem sentiu na própria pele os impactos da tirania. Setenta, A solidão do amanhã, A memória é uma folha seca e Ainda estou aqui não apenas narram fatos, mas reafirmam a necessidade de vigilância para que a história não se repita.
A música, assim como a literatura, tem a capacidade de dizer o indizível. Talvez por isso Clube da Esquina nº 2 me comova com tamanha intensidade: porque carrega, em cada acorde, as feridas ainda não cicatrizadas de um país. Ao ouvi-la, percebo o quanto trago comigo a herança das dores de um tempo que ainda insiste em não passar.
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Foto da Capa: Reprodução

