Há certas leituras que não devemos fazer antes de dormir, sob risco de termos um sono agitado ou sonhos perturbadores. Estava relendo o Livro de Êxodo, antes de me deitar, e tive um sonho estranho em que subia um monte e descia de lá com um curioso Decálogo (não me lembro se foi Iaveh, pessoalmente, quem me revelou) que continha as “Dez Palavras” mais pronunciadas no meio universitário! Palavras, vocês sabem, são instrumentos perfuro-cortantes capazes de produzir genocídios e entendimentos; compreensões e humilhações; explicações e mistérios… Imaginem, pois, a confusão que deu a construção da Torre de Babel com a invenção de novas línguas e de novas palavras estranhas aos homens! As palavras com as quais desci daquele monte de meu sonho (cada sonhador pode sonhar com as suas) são as seguintes, com suas respectivas “explicações”:
I EMPATIA. Em Aristóteles (Poética), significa o sentimento do expectador em relação ao Destino Trágico do Herói, produzindo piedade e terror. Hoje, nossos políticos produzem mais terror do que piedade.
II POTÊNCIA. Antigamente, se aplicava a motor de automóvel. Hoje, toda fala humanista é também “potente”. Mas potência é aquilo que nunca se realiza, senão não seria “Potência”, seria “Ato”.
III EPISTEMICÍDIO. É a crítica em relação ao domínio subjetivo e cognitivo praticado pelos “eurocêntricos imperialistas”, mas que se utiliza do principal recurso produzido por eles: a CRÍTICA!
IV NEOFASCISTA. Não é Mussolini renovado: é irracionalismo regressista com ares salvacionistas.
V ESPERANÇAR. Novilíngua pedagógica para iluministas descrentes nas filosofias da história, mas que mantêm a fé na figura do Sujeito.
VI NECROPOLÍTICA. Não é a política das casas funerárias, mas parece que é o contrário de BIOPOLÍTICA, de que tudo quanto é foucaultiano vive falando, mas que eu não sei o que é!
VII DECOLONIAL. Você fará muito sucesso na Universidade se for contra o Ocidente cristão, eurocêntrico, machista, branco, imperialista, cartesiano e progressista. Depois é só “esperançar” pra ver no que vai dar.
VIII RESISTIR. Que não é existir de novo, mas na Universidade tem gente que grafa RE-EXISTIR, o que não é muito aconselhável, até porque a simples EXISTÊNCIA já está muito difícil. Mas a gente resiste.
IX LUTA. É o que a gente faz contra “tudo que está aí”. E o que “está aí” continua “aí”, senão a luta se acaba.
X REVERBERAR. Não é repetir o mesmo verbo várias vezes. É sinônimo de ecoar ou, se quiser ser mais, digamos, acadêmico, use o termo “rebatimento”.
Acordei daquele estranho sonho com uma baita dor de cabeça e trocando as palavras!
Vai ver que não era um Monte: era a própria Babel!
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Foto da Capa: Gerada por IA.

