Um gato miando. Uma janela aberta. Ele entra e sai. Não para de miar. A chuva dá uma trégua, mas não cessa. E eu, no quentinho, me esforço para não dar tanta importância para a manifestação insistente do bichano de algum vizinho. Paciência. O que a vida quer da gente não é só coragem. Mas muita paciência. Quem hoje sabe desenvolver essa virtude tem muitos pontos, ou estrelinhas, na carteirinha da existência.
O monstro ou diabinho que habita em cada uma de nós vive nos atiçando para deixar essa tal dona Paciência ouriçada. Além de espinhos que podem se tornar perigosos, a senhora requer adestramento, com ásanas e respiração. Nesse ritmo da vida contemporânea, onde os fatos e memórias passam numa barra de rolagem, parar e saber canalizar a energia para o que, de fato, é importante exige uma sabedoria estratosférica.
E o universo, Deus, a Sabedoria Universal, o que cada um queira chamar, nos puxa, ora pelo braço, ora pela orelha, ou dá uma rasteira pra dar o seu recado. – Se tu pensas que comandas o traçado da vida, pode tirar teu cavalinho da chuva. Ora, ora. Quem manda na ordem dos fatores que altera o produto não és tu!
Ou será que recebi avisos, toques e não percebi? Quem sabe foi a forma que Ele ou Ela encontrou para dar uma freada para que eu conseguisse enxergar as coisas por outros ângulos? Preciso aguçar mais meu senso de observação para desvelar mistérios? Há muitas hipóteses. O fato é que parar exige paciência. Aceitação. Parar exige mais do que simplesmente receber uma recomendação para melhorar a condição de um órgão que vem funcionando de forma precária.
Meu coração resolveu apontar que não dá mais para viver com uma parede diminuindo a sala de bombeamento do ventrículo esquerdo. E a solução requer uma interferência radical: uma cirurgia. Ainda bem que fui avisada sem maiores consequências, a não ser ter que diminuir o ritmo. Viver em câmera lenta. Fazer tudo mais devagar, com calma, sem pressa. Adágio. Presto.
Estou tentando entrar na fase de transição, tentando adaptar a velocidade dos meus pensamentos com os movimentos. Que canseira. Que suador. O que pensava ser um problema da tão falada menopausa era um problema onde o fluido vital é bombeado. Será que não percebi isso antes porque não queria ou não podia parar? Por que não tinha paciência com o meu próprio funcionamento?
Sei lá, há tantas dúvidas pipocando dentro de mim. Há uma certeza que se impõe: é uma intimação para eu exercitar minha coragem. Aquela que me move para resolver ou tentar encontrar soluções para tantas coisas. Geralmente aplico isso para os outros, para o mundo, para o coletivo. Agora, veio a hora H. Preciso colocá-la em prática dentro de mim, por todos os poros.
Desconfio que vou conseguir. Não, confio que chegarei lá! Não posso titubear. Preciso me entregar à fé, às boas vibrações, às egrégoras do bem, aos meus anjos da guarda, aos meus mestres espirituais, ao Espírito Santo, a todos que podem me amparar nesse momento, talvez um dos mais desafiadores da minha vida.
Agradeço a todo mundo que tem me mandado votos de saúde e superação. Sim, vai passar. Tudo isso faz parte das disciplinas, cujas ementas envolvem aceitação, vivência raiz para se viver o momento presente com exercícios práticos para se dar conta do tamanho das pernas e dos braços de quem quer abraçar o mundo na faculdade da vida.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

