E lá estamos nós às vésperas de um novo ano, e com o fim de mais um ciclo de translação da Terra em volta do Sol, muitos dos trabalhadores celetistas se veem à sombra de um pesadelo. Não é o balanço fiscal, o inevitável relatório de cumprimento de metas, a ausência de bônus ou mesmo o boletim vermelho dos filhos. Com o fim deste 2025, que marca a metade exata desta década vivida sob o signo das calamidades, o trabalhador se vê diante do maior de todos os dilemas, diante da mais cruel das coerções: participar ou não desse ritual à insensatez corporativa chamado “amigo secreto”.
Chega a ser estranho como um hábito tão presente nos espaços de trabalho ao redor do mundo (sim, o nosso “amigo secreto” não é exclusivo, especula-se que seja uma variação do “Secret Santa” americano) não parece ter uma origem particularmente definida. Uma pesquisa apressada revela atribuições mil para o início da ideia. Referência a um ritual grego do qual nunca ouvi falar, embora eu leia em grego antigo e tenha estudado bastante a história e a literatura do período clássico; a figura de um magnata norte-americano que doava grana para caridade anonimamente; uma forma de todos terem ao menos um presente que surgiu na época da Grande Depressão; uma tradição escandinava qualquer etc.
Descarto todas essas especulações inúteis porque o que me interessa aqui são dois fatos apenas: 1) é impossível confirmar essa origem sem uma pesquisa aprofundada que não tenho tempo nem saco para fazer e 2) o modelo que seguimos de amigo secreto ou “amigo oculto”, como também o chamam, certamente foi moldado ao longo do século XX, não importa onde estejam as raízes históricas dessa prática. Outra coisa que poderia ser dita sobre amigo secreto, mas aí não estamos mais no terreno firme dos fatos, só de uma impressão que, tenho certeza, não é só minha: o amigo secreto perfila-se entre as mais diabólicas e sofisticadas formas de tortura corporativa já inventadas. É uma espécie de roleta russa de Natal em que todos participam torcendo secretamente para não serem, neste ano, as inevitáveis vítimas do desastre que acontecerá durante a entrega dos presentes. E todos sabem que alguém vai se ralar nessa hora, e fico na dúvida se parte da graça de quem gosta de amigo secreto não está nessa ansiedade sadomasoquista de ver quem será o lesado nessa roleta de boas intenções e más execuções.
Acho bastante significativo que os arrombados do escola sem partido não estejam minimamente incomodados com o fato de que a prática do amigo secreto começa a ser ensinada na escola, justamente no momento em que os alunos estão mais suscetíveis a gostar da ideia – algo de que se arrependerão vida afora mais tarde. Crianças não têm renda própria e veem de modo positivo qualquer oportunidade para ganhar presente, então a brincadeira parece ótima.
Até que você tem o azar de pegar o colega que esqueceu de avisar os pais que deveria comprar presente, ou que os pais esqueceram, e aí na hora você ganha um troféu de plástico feio da própria escola arranjado às pressas por alguma professora bem-intencionada para que aquela não seja a única criança sem presente na sala inteira – mas não se iluda, ela vai pedir de volta depois da aula.
Me lembro que tiveram a ideia de fazer um amigo secreto em algum dos anos no Ensino Médio – na época, chamávamos de 2º Grau. Os bilhetes com nomes dos “amigos foram sorteados” no último período de aula, acho que no início de novembro. A revelação seria no último dia de aula, uns 15 dias depois. Não demorou 15 minutos depois do fim da aula e a colega que havia me “tirado”, Lisiane, me abordou na saída da escola e me anunciou que eu era o amigo secreto dela, mas que ela não ia ficar tentando adivinhar, então que eu dissesse o que eu queria de uma vez. Eu nem sabia. Devo ter dito alguma coisa bem idiota, porque nem me lembro do que foi, talvez uma caneta, a única coisa em que consegui pensar.
Uns anos mais tarde, estagiando na assessoria de comunicação da Febem, topei entrar em outro amigo secreto do tipo. Eu tinha 19 anos e nem beber bebia. Do nada, na hora da “revelação”, ganhei uma caixa de Jack Daniels que fingi apreciar muito para não parecer ingrato. Depois fui procurado pela minha chefe imediata, a jornalista Peninha Calixto, para esclarecer: sabe-se lá quem deveria ter me dado presente, a pessoa não foi e avisou na última hora. Para que eu de novo não ficasse de mãos abanando, Pena recompôs uns dois ou três presentes na hora da entrega e assim eu fiquei com um uísque que seria o presente dela – e, claro, que eu devolvi no fim da festa. Uma terceira vez ainda, num amigo secreto da equipe dos esportes de ZH, quem me tirou foi o Wianey Carlet, que naquela festa em específico também não foi. Não culpo o azar por essa recorrência persecutória, culpo a mim mesmo por haver cedido à pressão do grupo e topado entrar nessa.
Porque o amigo secreto é irritante em várias camadas. É a sobrevivência de uma sociabilidade em um mundo trabalhista em mutação. Vivemos já em uma época em que as pessoas trocam de emprego com muito mais frequência do que quando esse tipo de brincadeira se popularizou, em um século XX em que carreiras poderiam ser construídas ao longo de uma vida na mesma empresa, cercado por muitas das mesmas pessoas. Você precisa exercitar uma atenção maníaca nos 15 dias de prazo sobre os hábitos e interesses de pessoas que você tenta ignorar por completo ao longo do ano. Você precisa fazer uma elegíaca apresentação na hora de revelar seu amigo secreto, que tenha ao mesmo tempo suspense, companheirismo e uma animação motivada que o mundo do trabalho já sugou da sua alma há uns bons anos. Você é um adulto funcional que paga as próprias contas. Você não precisa da ajuda do Sidão do financeiro ou da Renatinha do RH para ganhar alguma coisa nova no fim do ano, ainda mais com o veneno que eles têm de sobra nos demais meses…
A própria dinâmica dos amigos secretos varia muito nesse sentido. Em uma redação em que trabalhei, uma colega propôs uma forma ainda mais complexa em que você não colocava o nome, mas um pseudônimo, e aí ficava trocando bilhetes com quem havia tirado você, dando dicas de presentes, e na hora da festa o jogo da adivinhação incluía tentar acertar também quem você havia tirado. Um ano disso até foi divertido. Na repetição que se seguiu, foi se tornando intolerável. Para ser justo, contudo, foi em um desses amigos secretos que me deram o melhor presente que já ganhei em anos participando dessas papagaiadas, um exemplar de Vida: Modo de Usar, o maravilhoso romance de Georges Perec.
Não há como resolver o amigo secreto enquanto instituição porque sua própria existência é o problema. Já achei mais que a hipocrisia era um valor negativo, mas com a ascensão do bolsonarismo tosco que confunde grosseria com autenticidade, penso que ela tem lá seu papel a desempenhar na sociedade, e o amigo secreto não deixa de ser um treinamento intenso para a hipocrisia. Embora às vezes exagere. É um instrumento que busca incentivar a confraternização entre colegas de trabalho em um cenário no qual a ideia de sociabilização entre empregados e patrões precisa de uma dose gigantesca de cinismo ou de ingenuidade para ser levada a sério. Os mais novos sempre contribuem com a ingenuidade, e por isso gostam tanto da brincadeira. Os mais velhos sabem que por trás desse teatro motivacional vazio existe uma relação laboral conflituosa em que o discurso do Capital abandonou qualquer vestígio de hipocrisia para investir na exploração e no conflito aberto, na crítica direta aos direitos do trabalhador duramente conquistados. Não tem muito como entrar no espírito do amigo secreto com tanto desamigo declarado no ambiente de trabalho, a começar pelo dono do Capital.
Não sei muito bem quem se dedicou ao trabalho recente de difamar a CLT ao ponto de depararmos constantemente com um número surpreendentemente alto de idiotas advogando em qualquer postagem sobre trabalho no Brasil que ela é inútil e só atrapalha. Talvez no futuro distópico que aguarda a massa trabalhadora, substituída por robôs por um lado e vendendo o rabo por qualquer migalha para aplicativos que se recusam a reconhecer vínculo mesmo você trabalhando para eles, isso ao menos venha a ser um ponto positivo.
Ninguém mais vai precisar aderir a amigo secreto.
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Foto da Capa: Freepik

