Havia um tempo em que eu não me importava com o Carnaval. Não entendia o esforço e muito menos a emoção nos olhos daquelas pessoas que vibravam ao som da bateria e cantavam o enredo da escola de samba favorita, torcendo por sua vitória como se fosse a de um time de futebol. Sim, eu já falei sobre esse tema na semana passada, mas prefiro correr o risco da repetição a sufocar com as palavras presas em minha garganta. Volto, portanto, ao ponto inicial. O Carnaval não fazia parte da minha vida e, como todo e qualquer ser ignorante, eu achava que ele nem precisava existir. Isso foi em um tempo muito distante, quando eu ainda seguia os preceitos de uma religião que tratava como pecado tudo o que estivesse fora dela.
Demorei, mas percebi que os anos confinados em retiros e reuniões de grupos de jovens fizeram de mim uma pessoa preconceituosa, incapaz de compreender uma festa popular tão carregada de significados. Minha visão distorcida não alcançava as muitas mãos que, durante meses, costuravam fantasias em seus mínimos detalhes, nem os pés esfolados nos ensaios em busca do passo perfeito. Meus ouvidos, intoxicados de intolerância, não se permitiam reconhecer nos sambas-enredos, fragmentos marcantes da nossa história.
Aos poucos fui aprendendo que o Carnaval é a voz de quem nem sempre encontra espaço para falar, um clamor contra as injustiças, uma homenagem àqueles que precisam e merecem ser lembrados. O Carnaval é resistência e memória. É a autonomia de ser quem se é ou quem se deseja ser. É também o direito de ocupar a rua, de ser livre nem que seja por um dia, uma noite, uma hora. É ser feliz mesmo que vá, como diz a música de Tom Jobim, vá “tudo se acabar na quarta-feira.”
E nada mais justo, para acentuar a libertação provocada pelo Carnaval, que uma escola de samba tenha como homenageada aquela que fez da própria vida um manifesto, a nossa “padroeira da liberdade”. Ainda que uma jurada não considere conveniente chamar Rita Lee pelo apelido que ela mesma escolheu, ela continua sendo um exemplo de coragem e autenticidade.
Rita desafiou padrões em uma época marcada por forte repressão aos costumes e ao comportamento feminino. Inserida na contracultura dos anos 1960 e 1970, viveu os excessos de sua geração, mas consolidou seu espaço principalmente ao ocupar um território dominado por homens e ao tratar, sem pudor, de temas considerados proibidos para mulheres. Como ela própria afirmou: “Na minha época, diziam que mulher não podia usar calça. Fui lá e usei. Depois, me disseram que pra fazer rock tinha que ter colhão. Eu, com meu útero e ovários, fui fazer rock. Diziam também que mulher não podia falar de sexo e prazer. Fui lá e fiz música sobre isso.” Em vez de ceder às críticas, seguiu trabalhando e vivendo como bem entendia. Gravou discos, lotou shows, sustentou uma carreira longa e popular que ainda reverbera no meio artístico.
Em Rita Lee: uma autobiografia (Editora Globo, 2016), a Rainha do Rock escancara detalhes de sua vida pessoal, como os relacionamentos, o início de carreira e até mesmo um abuso sexual sofrido na infância. Uma das primeiras artistas brasileiras a abordar o direito e a liberdade das mulheres em suas letras, Rita também combateu os estereótipos de gênero na sociedade e na indústria musical, enfatizando a ideia de que lugar de mulher é onde ela deseja estar.
É inadmissível que, em meio aos tantos casos de feminicídio dos últimos dias, uma escola de samba perca pontos por chamar de padroeira uma representante da luta contra o patriarcado e que enfrentou publicamente o machismo, a censura e a tentativa constante de deslegitimar mulheres que ocupam espaços de poder. Não faz sentido discutir se um apelido descaracteriza a proposta apresentada pela escola quando mulheres continuam sendo mortas por serem mulheres. O foco se desloca do que realmente importa e o Carnaval, que tantas vezes se coloca como espaço de denúncia e memória, acaba enquadrado por critérios que ignoram o contexto social.
Rita Lee não transitou apenas pelos caminhos da música. Com mais de dez livros publicados, escreveu para crianças e adultos e ampliou sua atuação para além do palco. Ainda não li toda a sua obra, mas conheço alguns títulos. Amiga Ursa – Uma história triste, mas com final feliz (2019) foi um dos primeiros. Depois, li Rita Lee: uma autobiografia, que me serviu como uma espécie de autoajuda em um momento em que eu precisava reafirmar minha identidade diante do mundo. No ano passado, vieram Dropz (2017), com 61 contos irreverentes, e O mito do mito, obra póstuma lançada em 2024 que mistura ficção e realidade.
A artista que cantou liberdade na década de 1970 continua provocando debates nos dias atuais. Se antes eu desprezava o Carnaval por ignorância, hoje reconheço nele um espaço de afirmação. Eu, que um dia fechei os ouvidos para a bateria, agora celebro a liberdade de romper com a moral que me ensinou a julgar e com os bons costumes que, na verdade, eu nunca quis seguir.
Todos os textos de Andréia Schefer estão AQUI.
Foto da Capa: Divulgação

