Sabe aquelas fotos das Maldivas — mar turquesa, bangalôs sobre a água, sol de postal? Nunca estive lá, mas dei um pulinho naquele paraíso sem sair do sofá, acompanhada pelas páginas do livro Que Paraíso é Esse?, da jornalista italiana Francesca Borri. À medida que avançava na leitura, percebi que a viagem era menos sobre coqueiros e mais sobre camadas de realidade que não entram no catálogo de resorts.
Por trás do brilho das mais de 150 áreas transformadas em hospedagens de luxo — um processo que começou nos anos 1970, quando Maldivas ainda era famosa só entre surfistas — há um país dividido. Enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) dispara embalado pela máquina do turismo, Malé, a capital, segue como uma das cidades mais densas do planeta. Em média, vivem dez pessoas por residência. Ruas caóticas, serviços insuficientes, demandas antigas. A poucos quilômetros dali, hóspedes bebem drinques com miniguarda-chuvas e funcionários estrangeiros garantem o funcionamento impecável de ilhas-resort isoladas da vida local.
A separação cultural não é mero detalhe: por ser um país islâmico, há as chamadas “ilhas biquíni”, onde valem regras ocidentais, e as ilhas das famílias maldivas, onde a vida corre em outro ritmo. A economia cresce, mas o benefício fica para poucos — empresários influentes, políticos conectados. A população local? Essa continua esperando, sem se achar no direito de sonhar com o paraíso.
Aprender sobre Maldivas me ajudou a entender como números vistosos — especialmente o PIB — podem significar muito pouco para a maioria das pessoas de uma nação. Sim, os ganhos financeiros são espetaculares para cinquenta anos de turismo, mas também é espetacular a quantidade de visitantes e seus impactos. Neste caso, o “desenvolvimento”, como de costume, vem acompanhado de um rastro de problemas ambientais difíceis de administrar: lixo, energia, abastecimento, poluição marinha, pressão sobre sistemas de saúde, escassez de água potável. Sem falar na vulnerabilidade extrema às mudanças climáticas: basta o mar subir alguns centímetros para que todo o país esteja em risco.
Maria da Conceição Tavares já dizia: “O povo não come PIB”. E arrisco acrescentar: tampouco natureza, ar limpo ou estabilidade climática se preservam com esse indicador.
Falta contabilizar as métricas dos prejuízos ambientais — que são concretos e caríssimos — ao saldo do desenvolvimento econômico, pois no final os ganhos se concentram entre poucos e o prejuízo sempre se paga de forma coletiva. Esta é uma compreensão importante para que os mais céticos, acostumados a olhar o mundo apenas pelo prisma do dinheiro, reflitam sobre as causas, as consequências e o tamanho da conta.
E que conta! Nas cidades, as catástrofes deixadas por chuvas extremas, deslizamentos, enchentes e desastres naturais são uma fatura pesada: reconstrução, hospitalização, contaminação, resíduos tóxicos — isso sem falar nas cicatrizes invisíveis deixadas em quem perde casas, histórias e pessoas queridas.
Este ano, conheci alguém que me ajudou a ajustar ainda mais as lentes com que observo tudo isso. Thakur Powdyel, ex-ministro da Educação do Butão, veio dar uma aula na PUCRS. Uma figura interessante: homem pequeno, vestindo o traje tradicional butanês, cores vibrantes e um olhar sereno que parecia abraçar a sala inteira. Perguntava, com humildade verdadeira, se estávamos entendendo seu inglês. Ele queria garantir que sua mensagem chegasse limpa.
O Butão — um pequeno país encravado entre a Índia e a China, pendurado nos Himalaias — trilhou um caminho próprio. Sob a liderança do rei Jigme Singye Wangchuck, decidiu que não iria medir seu sucesso pelo PIB, mas pelo FIB — Felicidade Interna Bruta. Uma ideia ousada, quase heroica no mundo moderno: desenvolvimento não é só dinheiro, é saúde, educação, cultura, equilíbrio ambiental, bem-estar espiritual. E, claro, distribuição mais justa.
Thakur foi responsável pelas Escolas Verdes, onde sustentabilidade não é um tema de aula, mas um princípio de vida. A meta é formar pessoas que respeitem o planeta — não apenas profissionais com diploma na parede.
Resultado? O Butão, com seus 782 mil habitantes e PIB modesto, mantém a menor desigualdade da região e oferece saúde e educação gratuitas e de qualidade. Tudo isso com 56% de sua população vivendo no campo. Quando olho para o Brasil — gigante em território, economia e potencial —, me pergunto: se um país tão pequeno consegue, por que nós não?
Volto então às Maldivas e ao Brasil, para pensar sobre outras formas de medir o progresso. Nas Maldivas, o papel do Estado fica evidente; cabe regular o turismo buscando o equilíbrio, para que gere riqueza sem destruir o futuro do país — e para que parte do dinheiro finalmente chegue a quem vive ali. No Brasil, talvez caiba finalmente entender que desenvolvimento é mais do que novas obras para eventos, mais do que índices macroeconômicos, mais do que a soma do que produzimos.
Talvez seja hora de medir o que realmente importa — o desenvolvimento dos brasileiros e o cuidado com nossa riqueza natural — em uma economia do equilíbrio. Investir no nosso diferencial como nação é a base para construir coletivamente a ideia de pertencimento, de fraternidade e de orgulho do Brasil. País e povo que eu amo!
Que 2026 nos permita colocar um pouco de FIB nos nossos projetos de futuro. Quem sabe assim a ideia de paraíso deixe de ser apenas uma imagem bonita no Instagram — e vire realidade possível para todos nós.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

