É verão, calor intenso, estou caminhando com meus filhos e paramos para comprar garrafinhas de água gelada, combustível necessário para chegar ao destino. Damos poucos passos e percebo o olhar de um carroceiro. Já o vi antes, mas dessa vez há algo diferente: o olhar é fixo, persistente. Instintivamente, procuro proteger as crianças, mas então percebo que o olhar dele não se dirige a nós, e sim à minha mão. À garrafa de água gelada. Senti um nó na garganta. Entendi o quão difícil pode ser obter algo assim, afinal não é fácil entrar em um comércio, dependendo da sua aparência.
A desigualdade vai além do valor do produto, ela é sede.
Dia de muita chuva. Moro a poucos metros da escola da minha filha, procuro o guarda-chuva e saio, grata por não precisar enfrentar o trânsito. No caminho, vejo um homem agachado ao lado de um contêiner de lixo. A cena me desconforta, mas sigo, estou atrasada. Na volta, ele está caído. Tento desviar o olhar, proteger minha filha da imagem. Mas ela está ali.
A desigualdade envergonha, porque a crueldade não parece ter limites nem para mim.
Desço ao mercadinho do prédio, pois faltou algo de última hora. É mais caro ali, mas é um privilégio poder simplesmente descer e comprar. O caixa está vazio. Uma menina — talvez seis, sete anos — se aproxima do atendente e pergunta: — Moço, tem gordurinha? Ele sorri, aperta a própria barriga e responde brincando: — Ah, sempre tem, né? Depois, piscando, manda a menina ir até o açougue. Lá, ela recebe as sobras de gordura — aquelas que costumamos pedir para tirar antes de pesar. Do lado de fora, com um bebê no colo, a mãe espera pela proteína viável para incrementar a comida.
A desigualdade reserva míseros restos para os vulneráveis.
Nas últimas décadas, tento viver de forma mais sustentável. As melhores mudanças: ter um minhocário para o lixo orgânico e andar de bicicleta. Mas hoje faz frio e a preguiça quase vence. Penso na paz que é ir pedalando, no quanto me desestressa, especialmente na volta, quando, a cada metro, vou deixando os problemas para trás. No caminho, a sensação é boa — liberdade em forma de movimento. Fico feliz por enfrentar o frio, ele me faz sentir viva. Ao dobrar a esquina, vejo um homem enrolado em um cobertor úmido, descalço, caminhando rápido para entrar em calor.
A desigualdade ofusca a felicidade.
Outro dia, acompanhando meu filho até a casa de um amigo, um carroceiro me pediu dinheiro. Digo que não tenho. Ele responde: — Moça, é que hoje é aniversário do meu filho. Queria fazer um bolo.
Gelei. Pedi que me esperasse. Na volta, me contou que trabalhava numa oficina mecânica, mas que ficou sem emprego. Já no mercadinho, disse a ele para pegar os ingredientes. Açúcar. Leite. Ovos. Chocolate em pó. O rapaz do caixa resmungou: — Pegou da marca mais cara. Estava visivelmente incomodado com a presença do homem dentro do negócio.
A desigualdade nos distancia.
Caminhando pela rua, passa por mim rapidamente um homem carregando barras de aço, restos de uma construção. Parecia levar um tesouro muito pesado, em uma temperatura cruel de mais de 35 graus, mas caminhava determinado, acredito que na esperança de trocar seu tesouro por algum dinheiro. Precisava das duas mãos e, enquanto isso, pelo elástico desgastado, sua calça caía, as nádegas apareciam cada vez mais, mas essa não era uma preocupação, se soltasse o material, talvez fosse difícil equilibrar novamente e encontrar forças para carregá-lo.
A desigualdade atropela a dignidade e, infelizmente, vira paisagem.
Outro dia, o jornal noticiou que o condomínio de um belo edifício modernista de Porto Alegre instalou tubulações para molhar os pilotis à noite. O objetivo: evitar que moradores de rua dormissem ali. Injusto? Sim. Mas e se fosse em frente à sua casa?
A desigualdade cria conflitos irreconciliáveis, nos quais ninguém tem razão.
Essas histórias são reais. São parte do cotidiano, talvez mais visível, para quem não se esconde, para quem não vive em condomínio fechado, nem se desloca em carro com vidros escuros. E, não — isso não me faz mais feliz. Mas considero o isolamento um paliativo ilusório, uma cegueira que não nos permite construir um futuro próspero.
A desigualdade necessita de consciência para mudar a realidade.
Vivemos anestesiados em um sistema que transforma tudo em mercadoria — da comida ao tempo, da moradia à esperança. O valor das coisas ultrapassou o valor da vida.
E então me pergunto:
Qual o custo da desigualdade?
Não sei medir. Mas sinto. Sinto tristeza, culpa, raiva, impotência. Sinto a saúde mental coletiva se esfarelando. A desigualdade não é um tema — é uma experiência compartilhada, um veneno diário.
Nos relatos acima, ou nas histórias que neste momento passam na cabeça de cada um, a desigualdade afeta as relações sociais e fortemente nossa relação com o meio ambiente urbano.
O combate à desigualdade não se aproxima da igualdade, nem ao menos da equidade, significa lutar por garantir uma base social mínima, em que moradia, alimentação, educação e saúde sejam um direito fundamental. Necessitamos desta consciência coletiva para fazer a transformação. E, a partir dela, reconstruir a ideia de sociedade, desejando cada vez menos os espaços exclusivos, para construir mais oportunidades, mais possibilidades de sonhar conjuntamente. Fecha os olhos! Imagina nossa potência comunitária, a alegria de conviver nas ruas, de aprender um dos outros, de habitar o mesmo espaço. Nossa, desejo muito viver essa festa urbana! Mas, para começar, não podemos esquecer da urgência dessa mudança.
A desigualdade afeta a todos, só que, para muitos, a dor também é física.
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Foto da Capa: Fernando Frazão / Agência Brasil

