Quando menina, lembro das muitas reprimendas que recebia porque não atendia às muitas ordens recebidas: não suba tão alto, não sente de pernas abertas, não seja respondona, não corra, não se misture com os meninos. Aí escutava que era rebelde, teimosa, mal-educada, faladeira. Com o passar do tempo, muita recomendação de todos os lados, castigo dos pais, leitura de revistas femininas e um sem número de romances, fui me tornando aquela moça de pernas cruzadas, sorriso doce, passo comedido, mas non troppo. Afinal, saí da cidade pequena para fazer faculdade de Comunicação em vez de me tornar professora de Biologia (!), como meu pai desejava.
No decorrer da vida, na busca por cumprir com meus planos (ou um roteiro esperado para nós, mulheres?) tudo pareceu transcorrer com perfeição: fui ser esposa, mãe, boa profissional (mas não protagonista), até que um belo dia me dei conta de que estava vivendo sonhos que não eram os meus. Pior, ao procurar internamente, não consegui saber quais eram os meus sonhos, os meus gostos, os meus quereres. Quando entendi, até ali havia sido educada para agradar.
Tudo passa. Conta uma história que um rei, ao morrer, chamou seu herdeiro e entregou uma caixa com dois bilhetes, recomendando que abrisse um deles quando estivesse vivendo sua pior crise e o outro quando estivesse na sua melhor fase da vida. E foi o que o novo rei fez. Em cada uma das situações, o bilhete continha a mesma mensagem: “Tudo passa”. Mas se tudo passa, é efêmero e transitório, incontrolável, o que se torna importante na vida?
Ao longo dessa minha curta ou longa vida de 58 anos (vai depender da idade de quem me lê), ser leal com a minha essência se tornou fundamental, para poder ir em direção das demais respostas que precisava. Lya Luft uma vez escreveu que a “infância é o chão que a gente pisa a vida inteira”. Lá, naquele chão, eu me busquei. Pra isso, precisava resgatar aquela menina desobediente, malcriada, teimosa, faladeira, que havia sido. Infelizmente, o pai e a mãe não puderam compreender e transmitir para aquela menina o quanto ela era corajosa, curiosa, sociável, arrojada, livre. Mas tudo isso é minha essência, que carrego em mim. “Só tenho o que sou”, disse Clarice Lispector.
E foi também olhando para meu passado e minhas ancestrais, que pude resgatar e me inspirar em exemplos de desobediência, como o da minha avó materna, que falava mais palavrões do que a Dercy Gonçalves e era grande contadora de piadas sujas. Da minha avó paterna, que se separou do meu avô morando numa área rural há 40 anos. Da minha mãe, que – mesmo meu pai bancando a totalidade das despesas da casa – trabalhava como professora para poder bancar gastos dela, dos filhos e da casa (como a compra da nossa primeira linha telefônica, uma super tecnologia à época) e que foi uma empreendedora após a morte do meu pai. Mulheres que criaram brechas nos padrões que estavam preestabelecidos para elas e que agora podem ser alicerce para mim, para minhas filhas e outras mulheres da minha família.
E tudo isso é processo. Já aprendi um bom tanto sobre mim, sobre meus desejos, meus sonhos e meus gostos. Já realizei um outro tanto. Mas tenho certeza de que até morrer estarei aprendendo (Viva la Vida!), ainda errando (ninguém é perfeito) e desobedecendo, se for para seguir leal a essa essência curiosa, malcriada, livre, corajosa, arrojada, faladeira.
E você, tá (des)obedecendo a quê?
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