O título não é meu, é da obra escrita por Ingrid Fagundez, escritora gaúcha há anos radicada em São Paulo. Foi indicada por mim pela livreira da excelente livraria Baleia aqui de Porto Alegre, e eu, literalmente às cegas, pois estava sem óculos nessa visita, confiei na indicação e comprei. Que feliz descoberta. Encerrei a leitura dele hoje, mas já na metade do livro sabia que escreveria sobre ele aqui nesse meu espaço.
O livro trata sobre o fim de um amor como pano de fundo para falar de muitos amores das mulheres, mas, acima de tudo, sobre a arte de escrever diários. Eu sou uma apaixonada por diários desde sempre, mesmo que em minha infância nem os tenha cultivado tanto assim, embora hoje eu adoraria ter esses registros mais minuciosos dos meus dias passados.
O livro se ancora no término de relacionamento da autora/personagem, mas isso de fato perde força para o presente maior, que é a costura entre trechos desse relato de final de amor com passagens de diários de famosas escritoras e poetas do passado, como Sylvia Plath, Virginia Woolf, Anaïs Nin, Katherine Mansfield, Simone de Beauvoir, entre outras, enlaçando também com reflexões históricas e teóricas sobre a arte de escrever diários. A predominância absoluta de mulheres não é à toa.
Em um determinado ponto do livro, a autora aponta que os diários íntimos e confessionais foram criação do universo feminino, já que os primeiros cadernos dessa natureza vindos de homens eram diários de expedições, viagens, experimentos, relatórios. Como às mulheres era resguardado o espaço doméstico, as viagens que elas faziam eram internas, e as angústias, silenciamentos e violências às quais eram (e continuam sendo) submetidas precisaram encontrar um caminho de desvelamento e deságue.
Quem sabe uma boa saída para as histéricas freudianas que padeciam do corpo por terem seus desejos e fantasias sufocados por uma sociedade machista e patriarcal. Ainda assim, muitas das autoras citadas no livro, poetas e escritoras com histórias de vida tristes e romances enclausurantes e tóxicos, passaram por maus bocados que produziram belas obras, mas também a quase todas, levaram à morte. O suicídio de várias delas é prova disso. Mas essa é outra reflexão.
Aponto aqui a beleza desse livro sem uma forma narrativa encaixotada. Os estilos se entrecortam pelas páginas e a leitora vai se aproximando das diferentes linguagens da escritora, dependendo de que voz está falando no momento (a voz teórica, a voz da personagem autora abandonada ou as vozes dessas poetas todas trazendo seu sofrimento).
Considero o diário uma forma potente de literatura. Amo ler essa escrita intimista de autoras que admiro. Entendo que a banalidade dos dias corriqueiros, vista por olhos poéticos, faz da vida uma experiência literária que jamais poderia ser chamada de rotina. Precisamos falar do que fazemos, de como fazemos, de como pensamos e enxergamos o mundo. Homens e mulheres. Fiquei me perguntando como seria um diário de Bukowski ou Hemingway. Sei que transitar na própria intimidade ainda é mais coisa do universo feminino. Mais ainda escrever sobre ela ou confessá-la.
Enquanto isso, recomendo muito a leitura desse livro lindo e encerro com um trecho mais para o final da obra (que não é spoiler, já que justamente essa não é uma obra com enredo, tensão, desfecho, nem jornada de herói ou heroína). Aqui a personagem principal é a capacidade de se observar e olhar para o mundo e tentar contê-lo ou pelo menos representá-lo em palavras. Ao falar sobre a conclusão de seu livro, já nas últimas páginas, Ingrid nos conta:
“Escrevi e reescrevi este livro ao longo dos anos. Durante esse período, colegas e amigos me perguntaram sobre o “meu romance”: quando ficará pronto? A educação – feminina, infelizmente não feminista – oferecida pela minha mãe e que me leva a ser excessivamente dócil me impediu de responder a verdade: nunca. Não há romance, este não é um romance. Este também não é um diário nem um ensaio, apesar de contê-los, mas uma obra sustentada pela memória. Uma memória que não se assume ficcional, que persegue o que resta da vida, que não cria alter egos, porque procuro a correspondência com minha frágil figura de autora quando digo “eu”.”
Todos os textos de Luciane Slomka estão AQUI.
Foto da Capa: do livro Diário do Fim do Amor / Reprodução.

